2.11.05

HÖLDERLIN

TERRA NATAL


Alegre regressa o marujo ao rio tranquilo,
De longínquas ilhas, quando colheu seu lucro;
Também eu voltaria assim à terra natal, tivesse eu
Tantos bens colhido como dores colhi.

Ribeiras queridas, que outrora me criastes,
Acalmais vós as dores do amor? Prometeis-me vós,
Bosques da minha juventude, se eu
Voltar, mais uma vez repouso?

Junto ao regato fresco, onde vi brincar as ondas,
Junto ao rio, onde vi singrar os barcos,
Em breve eu estarei; a vós, montes amigos
Que outrora me abrigastes, da minha terra

Seguras fronteiras veneradas, à casa materna
E aos abraços dos irmãos amado,
A todos saúdo em breve, e vós me envolvereis,
Que, como em faixas, o coração me sare,

Ó meus fiéis! Mas eu sei, eu sei,
A dor do amor, essa não cura tão breve,
Essa não me afasta do peito
Nenhuma canção de embalo, que mortais cantem.

Porque aqueles que nos dão o fogo celeste,
Os deuses, também nos dão a dor sagrada.
Por isso esta fique. Filho da terra
Pareço eu: feito para amar, para sofrer.

(tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas II, Fundação Calouste Gulbenkian, 1997)

1.11.05

ALMEIDA FARIA

JÓ NO DIA DE TODOS-OS-SANTOS DE 1975


Hoje os noticiários anunciaram, enquanto Tiago ouvia rock na rádio, que uma viatura militar explodiu com um engenho de fraca potência no estádio da Luz. Já estamos habituados e não ligamos nada, mas mesmo assim a mãe receia sempre que a nossa casa um dia vá pelos ares. Como neste dia em 1755, quando Lisboa e parte do país foram arrasados pelo terramoto, muita gente espera ver vir uma calamidade ainda maior que todos os cataclismos que nos caíram em cima, e nem todos os santos juntos nos vão salvar. Pelo menos é o que disse o padre na missa, depois de ter lido o Apocalipse da epístola, anunciando castigos temíveis para os que cederem ao inimigo, cada vez há menos gente na igreja, quase só beatas e alguns lavradores expropriados sem terem que fazer e sem saberem ocupar o tempo. A mãe obriga-me a ir com ela porque precisa de companhia, quando não consegue levar o Tiago que anda na rua a brincar com outros gaiatos. Antes da revolução era obrigatório aos sábados de manhã ir às aulas de Moral, que eu passava de joelhos várias vezes, de castigo por ter sido apanhado a desenhar mulheres imorais enquanto o padre falava de gente espetada no ferro em brasa que entrava pela boca e saía pelo rabo ou ao contrário. Enquanto ficava ajoelhado ao lado da carteira, ou de pé ao canto da sala e de costas viradas para a turma, via-me escondido no castelo até me perder dos companheiros, chegava-me demais às muralhas ameadas, sentia a tontura de olhar para baixo, sofria a tortura das vertigens, perdia a segurança, o equilíbrio, começava a tombar, ia cair, a altura era tal que levaria alguns segundos antes de alcançar o solo sujo de lixo e erva crescida do fosso da barbacã e tentava remar com os braços no ar quando evitar a queda era impossível, a cabeça às cambalhotas e o corpo esbracejando sem esperança em direcção à morte que me esperava em baixo a rir às gargalhadas, caveira sobre um esqueleto vestido de manto cinzento, trambulhão sem rede que nunca mais acabava, nem tinha fim a caída nem conseguia sair duma falta de vontade, de genica para lutar, , indecisão de movimentos, transformado em morcego de asas de pano negro ou qualquer bicho repelente de olhos fechados, cegos à luz do dia, nas pálpebras um peso molengo, pedra-pomes porosa diante dos olhos condenados à clausura do escuro do túmulo onde Tiago estava encerrado em urna de chumbo sem sequer poder respirar porque o oxigénio faltava aos poucos, aos poucos, depressa demais, não havia fuga, os gases do escape do motor do carro em funcionamento dentro do espaço fechado iam-no matar.
Não era a nossa garagem, era numa cidade sem nome, as cozinhas tinham cheiros enjoativos a óleos mil vezes ardidos em diferentes fritos, embotando baços, minando intestinos de gente que só pensa em encher a pança apesar de cercada por inimigos menos presentes que pressentidos, eu mandei pôr meias solas nas minhas botas para saltar montes e vales em pulos de sete léguas, passar por cima das torres do castelo, chegar à Aldeia Aérea, encontrar os cavaleiros redondamente sentados em redor da sua mesa, pedir que salvem Tiago de morrer asfixiado. Mas não consegui subir, chovia, a várzea dos Cantares ficara inundada, seria preciso abrir a comporta para a cheia não ultrapassar os muros do açude destruindo tudo, campos, culturas, a horta onde o burro tirava água à nora embora isso fosse inútil sob a chuva, para o ir buscar eu tinha de atravessar um pau mal equilibrado sobre o cimento do vau da descarga das águas, tronco de madeira podre semelhante ao do quadro do anjo da guarda no nosso quarto onde acordo aliviado ao ritmo do rock ouvido por Tiago afinal salvo.

(capítulo 31 de Cavaleiro Andante, 1983 - quarta parte da "Tetralogia Lusitana")

29.10.05

A imagem real não tinha cor...
ELIAS CANETTI

O que é que vive numa linguagem? O que é que ela encobre? O que é que ela capta? Durante aquelas semanas passadas em Marrocos, nunca tentei aprender árabe nem tão pouco os dialectos berberes. Não queria perder nada da força contida nessas estranhas lamentações. Queria ser apanhado em cheio por esses sons e não abrandá-los através de vagos conhecimentos, tão insuficientes como artificiais.
Nada lera sobre essa terra. Os seus costumes eram-me tão desconhecidos como as suas gentes. O pouco que se possa ter aprendido durante toda uma vida acerca de qualquer país e acerca do seu povo, some-se, por inteiro, logo nas primeiras horas.
Por exemplo, a palavra «Allah», na qual nunca consegui penetrar, aproximar-me dela, sequer. E, no entanto, nessa palavra assentava boa parte da minha experiência, sendo como era a mais frequente, a mais eficaz, a mais aguda, a mais permanente das que os cegos iam pronunciando.
Para uma viagem levamos connosco quase tudo, mas a revolta, a indignação, essas foram deliberadamente esquecidas em casa. Vemos, ouvimos, maravilhamo-nos perante o medonho, só porque o medonho é algo de novo. O bom e perfeito viajante não tem coração!

(excerto do capítulo As lamentações dos Cegos, de As Vozes de Marraquexe, tradução de Isabel Ramalho, publicações Dom Quixote, 1991)

26.10.05

[da Terra]

DANIEL FARIA

JUNTO DOS RIOS DA BABILÓNIA [sl 136 (137)]


Nas margens dos rios imaginando pontes
Quando já só no nosso pensamento deslizavam
Debaixo da sombra das nossas liras
Ali nos pediam - em solo alheio -
Que cantássemos canções da nossa terra.
Como poderíamos cantar a nossa infância
Tão longe, num país estranho?

Os salgueiros têm folha persistente

Sob a sombra persistente a mudez
Junto dos rios da Babilónia
Foi a única das nossas alegrias

(de Homens que são como Lugares mal Situados, Fundação Manuel Leão, 1994)

25.10.05

[um poema que me fez lembrar um dos meus blogues preferidos]

JOÃO RUI DE SOUSA

A LEBRE DE CORES


Confluem as cores na já descida
lebre que foi ontem madrugada.
Lesta como lebre, a despedida
era lebre de cores transfigurada.

Lesta (ou lépida?) a voz havida
dessa lebre de cores disseminada,
distribuída em pranto e em dor erguida,
sofria o sofrimento disfarçada

para não ferir as cores que se adensavam
na sua pele sedosa e nas cavadas
reentrâncias do pus da sua lida.

Era um grito distenso (apenas lasso?)
de quem por muito arder no seu cansaço
já morto estava antes de ser vida.

(de Enquanto a Noite, a Folhagem, 1991)

24.10.05

[outros melros XXX]

ANTÓNIO LEITÃO

XIII


Canta um melro triste
pelo mato denso;
triste porque o penso,
canta, logo existe.
Quem dera soltar-se
da Filosofia,
melro sem Descartes,
pura melodia!

(de O Tempo e o Sonho, 1989)

22.10.05

[contributo de um ouvinte dos Clã para o entendimento desta eleição presidencial - a começar pelo nome do cd]

CARLOS TÊ (letra) / HÉLDER GONÇALVES (música)

NOVAS BABILÓNIAS


Neste tempo de sucessos
de quedas e ascensões
para o topo dos topos

para o gelo dos copos
para a vala das gerações
novos Bogarts em velhas gabardines
novas Madonnas em velhas Marilyns
crestam lendas nos magazines
ao ritmo das ilusões

novas Babilónias erguem-se do pó

e lê-se tudo em diagonal
e tudo chega a horas a Portugal
o comboio está agarrado
por fim o tempo está mesmo ao lado
já chegou o Desejado
e o sonho está normalizado
na suave proporção
de um para x elevado a um cifrão


novas Babilónias erguem-se do pó

tudo é novo e velho num vaivém de espuma
tudo se refunde no brilho da bruma
e vós combatentes de guerras idas
contentes lambendo as mãos do rei Midas
Joanas, Joões de arcas perdidas
saltadores de fogueiras já ardidas

cinzas de cinzas de cinzas
bem-vindos ao império das coisas parecidas

novas Babilónias erguem-se do pó

(do álbum lusoqualquercoisa, 1996)

20.10.05

INÊS LOURENÇO

O instante anterior


Uma ave estremece
no instante anterior
à rigidez das asas. Também ela
apesar do sentido inato
para sobrevoar abismos
transporta no corpo
a circulação pastosa do sangue
e a informe substância do
perseguido alimento.

(de A Enganosa Respiração da Manhã, Asa Editores, 2002)

19.10.05

[dia da Terra]

VASCO MIRANDA


DEMISSÃO


Se pudesse escrevia um poema sem palavras.
As palavras não existem. Já nada dizem
Do que antes era. Antes
Quando o medo era sombra inexistente
E era possível aos homens falar de amor.
Agora há só o espantalho do medo,
As bocas negras, a fome negra,
E o uivo dos cães mudos nas noites desertas e distantes.
Antes havia feras e cristão para as feras.
Agora, ou porque tudo são feras,
Ou porque já não há cristãos
(E há só o medo, o pavor, a fome,
As cumplicidades carnais ao topo dos ventos,
E o ridículo de se ter medo: o pasto das trevas)
A semente de Deus anda à deriva sem leira onde se acoite.

- Espuma, sonho, aurora, canto? - palavras ausentes.
No galeão da vida, haverá de novo bodas de sangue
Para que do Mar volte para a Terra
O viço e a alegria das novas sementes.

(de A Vida Suspensa, 1953)

17.10.05

VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA

Arte Poética


1.

Chega a mão
a escrever
negro chega onde
escreve
chega onde chega
a escrever não

2.

Chega ou não
a escrever
não chega onde
chega
escreve onde a negro
escreve a mão

3.

Chega em vão
a escrever
negro escreve onde
chega
quando escreve
escreve não

4.

Chega então a
escrever
não chega negro
a escrever
mão escreve escreve
escreva ou não

(de O Voo da Serpente, Campo das Letras, 2001)

16.10.05

(Henri Matisse - Le Rideau Jaune, 1915)

C. LUÍS BESSA

20


a água corre para o rio

porque é preciso distinguir
distinguem-se pelos dedos
pelas unhas
a arte revela segredos e gritos
a arte revela sustos
le rideau jaune, rené magritte
e o açúcar vem sempre no fim.

(de Legenda, edições Atlas, 1995)

15.10.05

Santa TERESA DE ÁVILA

FORMOSURA QUE EXCEDEIS!


Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!
Não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
para ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engrandeceis vosso nada.

(tradução de José Bento)
[nascido a 15 de Outubro de 70 a. C, faria hoje, portanto, 2075 anos, se fosse vivo]

PUBLIUS VERGILIUS MARO

BUCÓLICA SEXTA


Foi esta nossa Tália a que primeiro
verso siracusano vos compôs
e sem corar os bosques habitou.
Quando eu cantava os reis e seus combates
Cíntio me aconselhou pegando orelha:
«Títiro, o que convém a um pastor
é cuidar das ovelhas e ter verso
fácil e simples.» Vou então agora
ser poeta dos matos cuja frauta
modesta também seja. Que poetas,
Varo, sempre terás cuja ambição
seja a de irem cantando teus louvores
nessas funestas guerras. Se estes versos
tiverem um leitor que delas goste,
também a ti, ó Varo, hão-de cantar
tamargueiras e bosques, que obedeço
ao que me for mandado. Febo quer,
a tudo a preferindo, aquela página
que teu nome trouxer como motivo.
Piérides, em frente, que Mnasilo
e Crómis, os dois jovens, encontraram
a Sileno deitado numa gruta,
como sempre bem cheio todo o corpo
dos licores de Iaco. Da cabeça
as coroas lhe tinham descaído,
no chão a cantarinha ainda à mão.
Os moços, já que o velho muitas vezes
os trouxera ao engano na esperança
de lhe ouvirem o canto, o prendem firme
com as próprias grinaldas. Em socorro,
que tímidos estavam, Egle veio,
Egle, a mais formosa das Formosas
que são todas as Náiades, e pinta
ao Silvano que estava despertando
as têmporas e testa com amoras
que lhe deixaram tudo como em sangue.
Se riu ele da manha: «Por que atais
estes laços assim? Soltai-me, jovens,
já basta que se veja que tivestes
para tanto o poder. E vos direi
de versos meus o que saber quereis.
E para ela tenho eu outro favor.»
Logo começa e se podiam ver
Faunos e feras em cadência juntos
dançar como dançavam dos carvalhos
as balançadas copas. E jamais
gostou tanto o Parnaso de ouvir Febo
e tanto a seu Orfeu apreciaram
as montanhas do Ísmaro e Ródope.
Ela cantava como se um imenso
vazio houvesse e nele se juntassem
as sementes das terras, mares, ares
e do fluido fogo, os elementos
logo depois, também a pouco e pouco,
ganhando consistência o curvo céu,
em seguimento endurecendo o solo,
nos oceanos a ficar Nereida,
tomando sua forma tudo o que há.
A Terra com espanto viu brilhar
o sol-nascente, viu cair a chuva
das nuvens lá nos altos, começaram
os bosques a surgir e a vir andadndo
esparsos animais por virgens montes.
Cantou depois das pedras que atirou
Pirra e dos reinos que Saturno teve
e das aves do Cáucaso e do furto
que foi de Prometeu, da fonte de Hilas,
marinheiro a chamar e, pela costa,
por toda a costa, os ecos «Hilas! Hilas!»
A Pasífae cantou ele também,
a que feliz seria se jamais
existissem rebanhos, pudesse ela
com amor de novilho consolar-se.
As filhas de Proteu, com os mugidos,
os seus falsos mugidos, supuseram
ter os campos enchido, mas jamais
caíram na vergonha de se unir
a brutos animais, embora o medo
houvesse nelas de puxar arado
e por vezes passassem algum tempo
a procurar na fronte os rijos cornos.
Virgem sem sorte vaga nas montanhas
enquanto ele, deitado nos jacintos,
corpo de neve estende e sob azinho
rumina claras ervas ou persegue
uma qualquer novilha. E vós, ó Ninfas,
ó Ninfas de Dicte, fechai aos bosques
todo o passo que houver, para que a nós
se não revele, por qualquer vestígio,
esse errante bovino, que talvez
amor de verde pasto ou de rebanho
ou novilha lhe desse tentação
de penetrar estábulos gortínios.
Depois canta ele a moça que, atraída
pelo pomo de Hespéria, lá ficou;
em seguida, as irmãs de Faetonte
prendem amarga casca assim fazendo
que do chão brotem fortes amieiras.
Logo cantou de Galo o seu errar
nas margens do Permesso e de que modo
outra irmã o levou até Aónia,
de Febo ao coro e em honra do Herói
todos se levantaram; como Lino,
o pastor que como um deus cantava
e seu cabelo ornava de aipo amargo
com flores junto disse a ele um dia:
«A ti calamos dão Musas as que outrora
ao velho ascreu os deram, com os quais
costumava, cantando, os duros olmos
fazer descer do monte; dize tu
as origens do bosque de Guireu
para que nele tenha orgulho Apolo.»
Quem cantarei agora será Cila,
de Nilo filha, a que cingiu de monstros
suas alvas virilhas e tormenta
deu às naus de Dulíquio, os assustados
nautas dilacerando os cães marinhos?
Ou será o que disse de Tereu
sua metamorfose e dos presentes
que lhe deu Filomela, com a fuga
que ele fez para os ermos, com as asas
que a infeliz ganhou para voar
por cima dos abrigos que lá tinha?
Tudo o que Febo outrora compusera,
com o ditoso Eurotas o cantando
e logo o transmitindo a seus loureiros
cantou então Sileno, com os vales
em seu eco o lançando para os astros
até chegar a hora da recolha
de ovelhas ao redil e despontar
Vésper no céu para pesar de Olimpo.

(de Obras de Virgílio, tradução do latim do Prof. Agostinho da Silva, Temas e Debates, 1997)