FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
VERSOS ANTIGOS
se a noite se perder em ritmos de água, eu morrerei.
não há palavra mais doce que aquela que se despe
lentamente na baía, na nostalgia de si mesma.
outrora era a evidência do verso, rumor de aves,
lagos espirais caminhos por entre fontes e azuis
danças de deus nos longínquos areais, mas as
incertezas acumularam-se depois do sono, lembranças
da infância, da fronteira, dos açudes ruidosos.
eu morrerei se ouvir de novo essa voz, por isso
afastai-a célere dos oceanos, das portas entreabertas,
dos segredos. essa palavra é doce e mortífera: amai-a
longe de mim onde o silvo, o alarme das estações, é uma
espada, um gume à deriva no corpo. ficarei entre
sinais, escombros, longe das margens dos lagos, leve.
(de Todas as Coisas, editorial Caminho, 1988)
põe lá um aviso na porta da internet
Há 14 horas
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