1.9.11

JOÃO BARRENTO


[...]
No contacto com a poesia de Bobrowski percebemos uma coisa essencial que a poesia deste século (pelo menos a portuguesa) em grande parte esqueceu: que o mundo lá fora existe e fala, e pede para ser ouvido e lido. O velho topos romântico do livro da natureza renasce aqui, sempre cruzado com o da História e do mito — e nesse cruzamento reside a sua originalidade —, com uma função próxima da que o filósofo Hans Blumenberg lhe atribui num dos seus fascinantes livros: a de mostrar como o metaforismo da legibilidade do mundo a partir da experiência própria pode ser um eficaz mecanismo poético (e filosófico) de presentificação e revitalização de perdas e ausências. Não era bem assim nos românticos, que exploram esse tema para se instalarem num escapismo muitas vezes regressivo, ou então para chegarem à afirmação da natureza mágica da palavra do poeta-sacerdote, particularmente em Novalis. A fonte mais directa de Bobrowski para a sua forma sui generis de diálogo com o mundo vem-lhe, porém, da própria tradição do espaço lituano das suas origens, onde subsiste a crença pagã nessa capacidade de a natureza «falar»: as coisas falam, basta dar-lhes ouvidos. Mas há sem dúvida reminiscências românticas na visão dinâmica da natureza neste poeta, que permanentemente nos parece querer mostrar como a natura naturata se tornou numa simples fachada, em letra morta de uma natura naturans; ou, inversamente, como esta, precisamente enquanto livro que fala, possui uma energia própria que actua como um sistema de sinais que traçam um mapa da História e itinerários da memória que com ela se confundem. [...]


(excerto da Introdução a Como um Respirar - antologia poética, de Johannes Bobrowski, livros Cotovia, 1990)

1 comentário:

nd disse...

Um poeta tão grande quanto mal conhecido. Devia fazer parte de qualquer estante que se preze. Teve o azar de nascer na Alemanha, de ser mobilizado pelo exército nazi e depois ter ido parar à Rússia de Estaline, onde trabalhou como prisioneiro em minas de carvão uns anos. É bom dizer que foi um militante anti-nazi que a guerra engoliu. Morreu na ex-RDA aos 40 anos. Tudo isto nos afastou do conhecimento da sua obra. Só conheço o que está traduzido em português por João Barrento, essa pequena antologia preciosa, Como um Respirar. Abraço.