7.6.05

Nos últimos dias dei por mim a seguir sugestões de blogs. Dei-me muito bem.

1. Contagiado pelo entusiasmo do Alexandre Andrade (que já vai no 6º post sobre a película) fui ver "Pas de repos pour les braves" ("Os Bravos Não Têm Descanso").
Cito as sábias palavras do ilustre esverdeado: «O registo é eufórico, de um onirismo a mil léguas de Freud, dotado de lógicas próprias que se encavalitam e fazem negaças umas às outras. E, contudo, o mundo real dir-se-ia mais presente do que em qualquer produto da escola realista, se bem que filtrado, distorcido, transitoriamente do avesso
Permito-me realçar a delirante omnipresença da cacocromia, a sublimidade das cenas nocturnas e a fabulosa (e subtil, q.b.) paródia com os nomes das cidades.

2. A referência de Nicolau Saião a "O caso da 5ª Avenida", um policial de Anna Katharina Green traduzido (parcialmente) por Fernando Pessoa e editado na colecção "Vampiro" dos Livros do Brasil, deixou-me curioso e aproveitei a Feira do Livro para adquirir um exemplarzito (3,20?). Ainda não o li, mas pelo que folheei e pelas pesquisas que fiz (vejam aqui, por exemplo) sobre a Autora, a coisa promete.
[a acreditar na informação da base de dados da Biblioteca Nacional, esta autora, nascida em 1846, é também co-autora disto: "Neonatology and clinical biochemistry / Anne Green, Imogen Morgan. - London : ACB Venture, 1993. - [8], 213 p. ; 21 cm. - (Clinical Biochemistry in Medicine). - ISBN 0-902-429-04-3"]

3. No Domingo ainda fui a tempo de ouvir a repetição do programa "Os Verdes Anos do Mestre Salgueiro", da autoria de João Paulo Baltazar, na TSF sugerido pela Margarida Ferra. Uma reportagem a mostrar que é possível redescobrir a ruralidade e os saberes tradicionais sem pieguices romantizadas ou saudosimos e a lançar pistas para as maneiras práticas de lutar contra a descaracterização.

4.6.05

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

TEORIAS DA LUZ: O ESPELHO


Seria uma execução
quase perfeita, embora
lhe falte esse músculo
imprevisível, a que chmam
alma ou inspiração,
ou mesmo (os mais obstinados)
a verdade - a convicção
de que o mundo pode ser explicado
em poucos segundos
(ou que não chega
um semestre inteiro)
pelo reconhecimento
de uma promissória
(mesmo de uma taxa
sobre perdas comerciais)
a quem, de forma quase perfeita,
que roça o absurdo,
executou tais linhas.

(de Mais Tarde, Assírio & Alvim, 2003)
BLAISE CENDRARS

(...)
Quand on voyage on devrait fermer les yeux
Dormir j'aurais tant voulu dormir
Je reconnais tous les pays les yeux fermés à leur odeur
Et je reconnais tous les trains au bruit qu'ils font
(...)

(excerto de Prose du Transsibérien et de la Petit Jeanne de France, 1913)

3.6.05

EUGÈNE IONESCO

Para se escrever, é preciso não se ter nada para fazer, não ter um romance, ou uma peça ou um ensaio, ou um discurso para escrever.
Escrevo porque não tenho de escrever. Não sou obrigado. Não escreverei quando começar a escrever a minha peça (que espero poder, ter tempo de, escrever).
Mas, neste momento, diante deste belo jardim, com esta bela cerca à volta ? como não tenho nada que escrever, escrevo... Escrevo.
Escreva, continue a escrever para enriquecer a língua francesa.
Eu não deveria gracejar. Mas deve gracejar-se, claro.
Podemos fazer gracejos amargos, doces, desagradáveis, agradáveis, cruéis, ternos, cor-de-rosa, negros, temíveis, tranquilizadores, delicados, indelicados, perversos, honestos, sentidos, malcheirosos, calmantes, exasperantes, tristes, alegres, salgados, sem sal, apimentados, melífluos, lisonjeiros, acerbos, banais, originais, doentios, saudáveis, ociosos, pedantes, aborrecidos, inquietantes, alucinantes, realistas, irreais, risonhos, corteses, descorteses, secos, sumarentos, nobres, burgueses, populares, truculentos, simplistas, tristes, dementes, petulantes, fora de moda, modernos, insignificantes, arejados, viciados, etc... etc...
Colocar por ordem. Se tiverem - e vocês têm - tempo a perder. Em vez de lerem Agatha Christie, por exemplo.

(in A Busca Intermitente, tradução de Manuel João Gomes, Difel, 1990)
RAIMOND CARVER

Bobber

On the Columbia River near Vantage,
Washington, we fished for whitefish
in the winter months; my dad, Swede-
Mr. Lindgren-and me. They used belly-reels,
pencil-length sinkers, red, yellow, or brown
flies baited with maggots.
They wanted distance and went clear out there
to the edge of the riffle.
I fished near shore with a quill bobber and a cane pole.

My dad kept his maggots alive and warm
under his lower lip. Mr. Lindgren didn't drink.
I liked him better than my dad for a time.
He lets me steer his car, teased me
about my name "Junior", and said
one day I'd grow into a fine man, remember
all this, and fish with my own son.
But my dad was right. I mean
he kept silent and looked into the river,
worked his tongue, like a thought, behind the bait.

Bóia de Pesca

No rio Columbia ao pé de Vantage,
Washington, íamos à pesca do salmão branco
nos meses de inverno; o meu pai, Swede-
o Sr. Lindgren-e eu. Eles usavam carretos,
longas chumbadas, moscas vermelhas, amarelas
ou castanhas, com engodo de larvas.
Eles queriam distância e saíam dali
para junto dos rápidos.
Eu pescava na margem com bóia de ouriço e uma cana.

O meu pai mantinha as larvas vivas e quentes
debaixo do lábio inferior. O Sr. Lindgren não bebia.
Por uns tempos, gostei mais dele do que do meu pai.
Deixou-me dirigir o seu carro, implicava
com o meu nome "Junior", e dizia
que eu havia de me tornar num tipo decente, lembrar
tudo isto e pescar com o meu filho.
Mas o meu pai tinha razão. Refiro-me
a ele manter silêncio e olhar o rio
movendo a língua, como uma ideia, por trás do isco.

(tradução minha)

1.6.05

Há dias, no concurso do serão da RTP, perguntava-se quem era o Presidente da República no momento da adesão de Portugal à então C.E.E., apresentando as seguintes hipóteses:
a) Freitas do Amaral
b) Mário Soares
c) Jorge Sampaio

O concorrente, um rapazinho de 19 anos, hesitou, ponderou e respondeu que a certa era a b). Ou seja: foi, tal como os milhares (milhões?) de pessoas que assistem ao programa, induzido a acreditar numa falsidade.
Vejamos, então: o Tratado de adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia foi assinado em 1985 pelo Primeiro-Ministro Mário Soares, passando o nosso país a ser membro de pleno direito na passagem de ano seguinte; Ramalho Eanes terminou o seu segundo mandato de Presidente da República em 9 de Março de 1986, com a tomada de posse do seu sucessor, Mário Soares, eleito dois meses antes.

O entretenimento televisivo pode ser uma forma muito boa e eficaz de ajuda ao conhecimento, mas é tremendamente perverso quando se deixam passar impunemente disparates destes.
MARTÍN LOPEZ-VEGA

PAS SANS LE PRÉSERVATIF

Le préservatif doit être placé
sur le coeur en êrection
avant tout contact
entre le coeur
et la vision du partenaire
afin d'aider à prevenir
toute maladie emotionelment transmissible.

(de Travesías, Renacimiento, 1999)

30.5.05

[outros melros XXV]

MÁRIO DE CARVALHO

Gosto de melros, os espertotes, ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas de Lisboa, não sei se da concorrência de pardais fura-vidas e de pombalhões abafa-espaços, se de uma vontade de saltitar ao de leve por outras bandas.
Ainda assim, aparecem uns tantos pela feira do livro, a lavrar no parque. Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste Clément, ele é o Junqueiro...
Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo glauco a fechar as vistas.
Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar.

(in Os Livros no Parque, editado por 9 editoras e distribuído gratuitamente na Feira do ano passado)

28.5.05

JOSÉ RICARDO NUNES
Nasceu em 1964, em Lisboa.
Licenciado em Direito e Mestre em Literatura e Cultura Portuguesas (Época Contemporânea), exerce ambas as áreas de formação, tendo já publicados dois livros sobre poesia: Um Corpo Escrevente. A Poesia de Luiza Neto Jorge (&etc, 2000) e 9 Poetas para o Século XXI (Angelus Novus, 2002).



reaberto o processo confessei
a verdade como ele me obrigou
a casar e a trabalhar na loja
e o sentido da minha existência se foi perdendo
à medida que se foi revelando
_________________

lume luz um ouro
nas veias eu andava aos solavancos
como se algo a cada passo se fosse atravessando
entre mim e o meu corpo
_________________

fiquei sentado a ver o fogo alastrar
em cima do penedo onde ia com o meu pai
comer depois da caça as imagens
quando o corpo ferve
eu queimo-as com a ponta do cigarro
junto ao coração evitando tocar-lhe
não vá a luísa acordar

(de Rua 31 de Janeiro (alguma vozes), &etc, 1998)

FEEDBACK

trinco-me no pulso e sopro
para dentro do sangue os meus poemas


FLORAÇÃO

abana-me o corpo contra
fevereiro na luz embate o coração
move-se mais de noite acordo
com ele no lugar do cérebro
e tenho a cabeça a florir


XIV

enche os ouvidos
com areia e calca
até doer

alguém um dia
escreverá
sobre ti uma frase

(de Na Linha Divisória, Campo das Letras, 2000)


NÓS, AS CRIANÇAS

Trocamos as cores,
desconhecemos onde acaba a mão direita
e recomeça a esquerda.
Inventamos novas palavras sem saber
que desde sempre havia mundo para elas.
Ou roubamos as sílabas.
Mas somos ainda menos do que crianças,
muito menos do que aquelas crianças
que levam tudo à boca.


RIQUEZA ANTIGA

Agora somos forçados a esconder
o corpo atrás de lâmpadas.

A riqueza antiga já não gera
uma linguagem pura.


FUGITIVO

Vou trazê-lo de volta ao redil
e sufocá-lo com as minhas palavras
ou lançar-lhe fogo ou embrulhá-lo
em ramas e placentas, ele anda
às cegas a tocar nas coisas, a bater
por dentro de outro sangue, e eu não
posso deixar o meu coração
andar por aí assim perdido.

(de Novas Razões, Gótica, 2002)

26.5.05

Agora que o
cavalo se acalma para partir
o mar sobe todo até aos cabelos
e o vento repete palavras com
silêncios depois dos silêncios depois
a nitidez completamente cega
como quem perde tudo o que acumula.
Resta o nada para nos saciar.

23.5.05

JOÃO CANDEIAS

Um só começo


um só começo. momento da largada
à bolina das tentações. eu quis a
vida dos impérios, agora quero-lhes
a morte. a esta ordem opõe-se uma
outra ordem, como olho longo de
história irreversível. uma flor colhida
ganha o sentido único da energia resguardada.
um corvo precipita um relâmpago negro
sobre a baba branca do verão.
estamos vivos. estamos vivos ainda
na busca do berço inicial, quando
rejeitamos à lama o corpo pobre e minucioso
a transparência das profecias novas
embriaguez tão plena de outras descobertas
mãos arrastadas sobre o granito das
longas caminhadas nocturnas.
mas cambaleamos, e se finalmente regressamos
à chave do nosso repouso, uma criança
todavia, fere de lâminas nuas, o provecto
rosto que cresceu num outono convulso
de apelos inaudíveis

(de Estamos muito longe Meu Amor de alcançar a Terra Prometida, Átrio, 1992)

22.5.05

[um poema que fica no dia em que o Benfica ganhou o Campeonato]

JORGE DE SOUSA BRAGA

NOS SEMÁFOROS DA RUA DE SANTA CATARINA


Ao menos os teus olhos
permanecem verdes
todo o ano

(de Plano para Salvar Veneza, 1981)

12.5.05

GEORGES CHARBONNIER: [...] A partir de quando pensa que surgiu a literatura? Como a reconheceu?

JORGE LUIS BORGES: Reconheci-a de maneira física. Há qualquer coisa que muda em mim. Não me atrevo a falar da circulação do meu sangue ou do ritmo da minha respiração, mas existem coisas que sinto imediatamente como sendo reflexos da poesia. Por exemplo, se tivesse de analisar ou de justificar um verso como: «O vento da outra noite destruiu o amor», talvez isso me custasse muito e a explicação certamente não seria satisfatória. Mas quando digo esse verso, mesmo em mau francês, ou quando alguém diz esse verso, sinto que estou perante a poesia. Da mesma maneira que sentimos, não sei o quê, o mar, uma mulher, o pôr do sol, da mesma maneira se sente a amizade ou a inteligência dos outros. Isso é uma experiência imediata. Por exemplo, você vai a uma reunião, a um cocktail, e apresentam-lhe duas pessoas. Uma pronuncia algumas coisas bastante inteligentes. A outra não diz senão banalidades. Pensa nisso e tem a convicção de que a pessoa que disse coisas inteligentes é um imbecil e a outra é de facto inteligente! Eu julgo que não nos enganamos. Ora, esta impressão imediata da poesia, da inteligência ou até da bondade é realmente mais exacta. Enquanto o raciocínio é uma espécie de cadeia, não? se nos iludimos uma única vez, o resto não existe. Penso que se sente a poesia como a música, como o amor, como a amizade, como todas as coisas do mundo. A explicação vem depois.

(excerto de Entrevistas com Jorge Luis Borges, tradução de Serafim Ferreira, Início, 1968)

9.5.05





JAMES RUSSELL LOWELL

SOBRE UM RETRATO DE DANTE POR GIOTTO


E este és tu, que pálido fitaste,
Com calmo e frio olhar imarcescível,
As almas torturadas, e notaste
Cada pena, e passaste, inda impassível,
Salvo quando p'ra trás ousou lançar
Teu coração um proibido olhar,
E viu Francesca, como uma criança,
Montar serena teu corcel que avança
E com mão firme o seu orgulho dominar?

Com pálpebras descidas, fronte calma,
E olhar remoto, que interior divisa
Da bela Beatriz errando a alma
Em ilhas frescas de marinha brisa,
Atravessas das ruas o rumor,
Protegido de ouvi-lo pela flor
Que ela te deu e a tua mão levanta,
Essa palma que vem da Terra Santa; -
Aqui não há sinal da ruína e sua dor.

Mas há alguma coisa que contorna
Teus lábios, e do teu fado é profeta,
A sombra quando o eclipse inda não torna
Do negro disco a escuridão completa;
Alguma coisa que banir-te quer
Dos homens e vis fados do seu ser,
Ainda que Florença não houvesse
Fechado as suas portas, e tivesse
Deixado a tua eterna dor de te tolher.

Ai! o que segue destemidamente
Os ditames de uma alma de poeta
Vagueará, sem que o force o mundo insciente,
Em exilada solidão completa;
Mais que as muralhas de Florença forte
A muralha que o exclui, até que a morte
O solte, de amizade e lar, e faz
Que a sua oração seja a pedir paz
Como a tua, ó guerreiro altivo contra a sorte!

(tradução de Fernando Pessoa para a Biblioteca Internacional de Obras Célebres, publicada por volta de 1911 - editado por Arnaldo Saraiva em Fernando Pessoa, Poeta - Tradutor de Poetas, Lello editores, 1996)

8.5.05

[no aniversário do fim da guerra]

GÜNTER KUNERT

SOBRE ALGUNS QUE ESCAPARAM


Quando o homem
Foi retirado
Dos escombros
Da sua casa
Bombardeada,
Sacudiu-se
E disse:
Nunca mais.

Pelo menos não já.

(Tradução de Yvette Centeno in 90 Poemas, apáginastantas, 1983)