10.8.04

HÉLIA CORREIA

Era uma vez um homem que nascera muito sábio. Ora, às vezes, tal facto aborrecia-o muito. Sempre com o nariz enfiado em livros velhos, sempre a escrevinhar relatórios para enviar aos outros sábios que moravam longe - naquele tempo não havia telefone -, sempre a pensar e a repensar, a fazer contas, a espreitar para os céus e para os caldeirões, que coisa! Então não tinha direito a descansar?
Parou e foi abrir uma janela. O sol - se bem que fosse um sol inglês estava cheio de força naquele dia - entrou por ali dentro, todo entusiasmado, porque era muito raro permitirem-lhe fazer uma visita àquele laboratório. Com a pressa, tropeçou contra um prisma de vidro e desfez-se nas suas sete cores. Surgiu um arco-íris na parede.
O sábio percebeu tudo o que se passara ficou ainda mais aborrecido:
- Pronto! Agora estraguei o mistério que havia no Arco-Íris do céu! Não passa de um espectro da luz solar que se refracta nas gotinhas de água. Acabaram-se as histórias sobre as panelas de ouro escondidas no lugar em que ele toca na terra. Ninguém mais verá nele a túnica de Íris, mensageira dos deuses, nem o sinal da paz entre Jeová e os homens. Mas que grande chatice!
Para desanuviar, foi dar um passeiozinho. Mas, como estava pouco habituado a andar, depressa se cansou. Sentou-se à sombra de uma macieira. E vai, caiu-lhe um fruto em cima da cabeça. Estava a saboreá-lo com delícia quando gritou de novo:
- Que chatice!
Descobrira, ali mesmo, as leis da gravidade.

(de A Luz de Newton, Relógio d'Água, 1988)


JOHN KEATS

(...)Do not all charms fly
At the mere touch of cold philosophy?
There was an awful rainbow once in heaven:
We know her woof, her texture; she is given
In the dull catalogue of common things.
Philosophy will clip an Angel's wings,
Conquer all mysteries by rule and line,
Empty the haunted air, and gnomed mine -
Unweave a rainbow, as it erewhile made
The tender-person'd Lamia melt into a shade

(from Lamia - part II, 1820)

4.8.04



[Alberto Giacometti fotografado por Henri Cartier-Bresson]
Maria Filomena Mónica revela hoje, no Público, "O Diário Secreto de Santana Lopes com a Idade de 48 Anos", onde, às tantas afirma: «(...)o Prof. [Boaventura] Sousa Santos declarava estar "Portugal no grau zero das alternativas". Se fosse a ele, estava caladinho. Caso contrário, ainda divulgo os poemas que publicou, num livrinho chamado Têmpera, editado pela Centelha, em 1980, sobre as "rachas das meninas".»

Antecipando a ameaça, passo a transcrever, do referido livro, um excerto (o poema é longo...) da

ODE À INFÂNCIA

(...)
são muitas as horas da tarde
quando as mãos do último cigarro
esfregam em louro
o triunfo sobre a autoridade
a moral escarpada da verdura
resvala dos cerros como a lua nova
alagada de medo
escancaram-se as cancelas
das secretas construções
nas ruínas do ciclone de quarenta
trabalhos manuais sem mestre nem montra
entram chefes guerras caracóis
tesouras e pauzinhos
nas rachas das meninas
na catequese é em coro
e em filas
no escuro dos intervalos
medem-se as pilas
Boaventura tens quebranto
dois te puseram três te hão-de tirar
se eles quiserem bem podem
são as três pessoas da Santíssima Trindade
que é Pai, Filho e Espírito Santo
mexo nos anos sinto nas mãos
a moleza da cera não fere
alastra
(...)

[o livro em questão é o nº 33 da colecção Nosso Tempo, que foi antecedido por Afluentes de Abril do conhecido advogado Celso Cruzeiro - apesar disso dessa colecção também fazem parte livros notáveis da poesia portuguesa dos anos 70]

3.8.04

MARGUERITE DURAS

- Despache-se a falar. Invente.
Ela fez um esforço, falou quase alto no café ainda deserto.
- O que seria preciso era habitar uma cidade sem árvores as árvores gritam quando há vento aqui há sempre sempre à excepção de dois dias por ano no seu lugar está a ver eu iria embora daqui não ficaria aqui todos os pássaros ou quase todos são pássaros do mar que se encontram mortos depois das tempestades e quando a tempestade pára e as árvores deixam de gritar ouvimo-los gritar sobre a praia como degolados isso impede as crianças de dormir não eu ia-me embora.
Ela deteve-se, os olhos ainda fechados pelo medo. Ele olhou-a com uma grande atenção.

(excerto de Moderato Cantabile, 4ª ed.: Difel, 2002 - tradução de Flora Larsson e Ana Paula Laborinho)

2.8.04

JOSÉ AFONSO

Por Trás Daquela Janela


Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se a minha faca cortasse
Se aquela parede andasse
E grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue o dia
Na noite que segue o dia
O meu amigo lá dorme
De pé

E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

(do álbum Eu vou ser como a toupeira, 1972)

1.8.04

[Faz hoje 27 anos que morreu o cardeal Cerejeira]

MÁRIO BEIRÃO

FALA DUM PASTOR
(NA GRANDE FESTA DE BEJA)


(Ao Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira)

Aqui, neste solene descampado,
- Plaino de cismas e melancolia -
Tudo se volve a Deus; tudo irradia
Graça, Esperança, Espírito Sagrado:

E, nos sulcos abertos pelo arado,
Germina luz, um sonho, um novo dia;
E, do ocaso na mística elegia,
Brilham as chagas do precioso Lado!

Esta é a planície, que o silêncio embala,
- A grã planície, resplendente de oiro...
Que ela desperte ao som da vossa fala!

- Ó Príncipe da mais augusta igreja,
Por vosso influxo, a um gesto imorredoiro,
O pão do amor multiplicado seja!

(de O Pão da Ceia, edições Ática, 1964)


JORGE DE SENA

De púrpura andas vestido
Que Roma te concedeu
para que humilde defendas
o direito dos humildes
em Terras de Portugal.
Ai cardeal, cardeal!

Mas a mitra que te cobre
não te dói mais que os espinhos
na cabeça do teu Mestre.
Doem-te os cornos dos ricos
das terras de Portugal.
Ai cardeal, cardeal!

9 de Dezembro de 1956

(de Dedicácias, Três Sinais editores, 1999)

31.7.04

[a ironia da canção dos Xutos]

É amanhã dia 1 de Agosto
e tudo em mim é um fogo posto

28.7.04

Genocídio em Darfur

O Nuno da Rua da Judiaria tem estado a chamar a atenção, desde sexta-feira, para o genocídio que está nestes dias a acontecer no Sudão.

O boletim da Agência Ecclesia desta semana, também denuncia a situação e dá conta de alguns esforços que estão a ser desencadeados. Transcrevo:

«Ajuda para o Sudão
O enviado especial de João Paulo II ao Sudão, o arcebispo Josef Cordes, pediu aos católicos do mundo que se mobilizem por meio das instituições católicas de assistência, como a Cáritas, para sair em ajuda das populações do Darfur. O arcebispo, presidente do Conselho Pontifício "Cor Unum", fez uma análise dramática da situação no Darfur, região ocidental do Sudão, numa entrevista concedida à agência televisiva Rome Reports.
"Fala-se de dois milhões de refugiados, é um genocídio como o do Ruanda, mas em câmara lenta", assegura. Para explicar a origem do conflito, o prelado refere que "o povo sentia que não era bem tratado. Deste modo, criou-se um grupo de rebeldes que empreendeu a guerra contra o governo, contra o Estado". "Agora o governo actua contra eles para restabelecer a ordem e não parece que o faça da melhor maneira. Utiliza grupos milicianos tribais para atacar a população de Darfur", explica o arcebispo, após constatar que cerca de dez mil pessoas morreram neste conflito regional nos últimos meses.
A Caritas Internacionalis fez um apelo de forma a recolher dezoito milhões de dólares para levar ajuda, água, medicamentos e construir refúgios no Darfur. O presidente do "Cor Unum", que visita em nome de João Paulo II os locais do mundo mais afectados pela guerra ou pelas catástrofes naturais lamenta que o governo de Cartum "não facilite o acesso para fazer chegar estas ajudas às populações" e pede que "a comunidade internacional faça pressão sobre o governo do Sudão".
A Caritas Internationalis, confederação de 154 organizações católicas de ajuda, desenvolvimento e serviço social, já alertou para os números da crise humanitária no Darfur, província sudanesa, assinalando que mais de 1 milhão e 200 mil pessoas foram forçadas a abandonar os seus lares e estão espalhadas por um território duas vezes superior ao de França. As Nações Unidas estimam que mesmo que a ajuda internacional seja imediatamente entregue, 300 mil pessoas estão em risco de morte.»

Entretanto, a mesma agência acrescenta on-line mais desenvolvimentos.
Hoje é dia da Terra da Alegria
MIGUEL CASTRO HENRIQUES

O rapaz subiu a um banco de jardim todo coberto de folhas caídas e disse para quem o quisesse ouvir:
«Esta tarde não quero ter nome!»
E embora o tivesse dito com voz firme e sonora ninguém pareceu tê-lo ouvido.

(início de um conto de Uma Menina de sete Gatos ou O Saldo de Euler, Assírio & Alvim, 1992 - peninsulares / literatura)

26.7.04

Como se fora uma metáfora...

Na sexta-feira, dia em que morreu Carlos Paredes, passei a várias horas, por várias estações do Metro de Lisboa. Em todas o sistema de som difundia a música daquele mestre. Uma bela homenagem!

No entanto, em algumas das estações, o chinfrim do sistema de video-projecção com publicidade, intercalada por um pseudo-serviço infomativo, contaminava a voz da guitarra, como se fora uma metáfora...

20.7.04

[faz hoje 35 anos que dois escuteiros estiveram na lua]

R.E.M.

Man On The Moon


Mott the Hoople and the game of Life.
Andy Kaufman in the wrestling match.
Monopoly, Twenty one, checkers, and chess.
Mister Fred Blassie in a breakfast mess.
Let's play Twister, let's play Risk.
See you in heaven if you make the list.

Hey, Andy, did you hear about this one?
Tell me, are you locked in the punch?
Hey, Andy, are you goofing on Elvis?
Hey, baby, are we losing touch?

If you believed they put a man on the moon
If you believe there's nothing up his sleeve, then nothing is cool.

Moses went walking with the staff of wood.
Newton got beaned by the apple good.
Egypt was troubled by the horrible asp.
Mister Charles Darwin had the gall to ask.

Hey, Andy, did you hear about this one?
Tell me, are you locked in the punch?
Hey, Andy, are you goofing on Elvis?
Hey, baby, are you having fun?

If you believed they put a man on the moon
If you believe there's nothing up his sleeve, then nothing is cool.

Here's a little agit for the never-believer.
Here's a little ghost for the offering.
Here's a truck stop instead of Saint Peter's.
Mister Andy Kaufman's gone wrestling (wrestling bears)

Hey, Andy, did you hear about this one?
Tell me, are you locked in the punch?
Hey, Andy, are you goofing on Elvis?
Hey, baby, are we losing touch?

If you believed they put a man on the moon
If you believe there's nothing up his sleeve, then nothing is cool.

(do álbum Automatic for the People, 1992)

18.7.04

(atribuído ao) Rei DAVID

Quem habitará, Senhor, no vosso santuário,
quem descansará na vossa montanha sagrada?

O que vive sem mancha e pratica a justiça
e diz a verdade que tem no seu coração,
o que não usa a língua para levantar calúnias
e não faz o mal ao seu próximo
nem ultraja o seu semelhante,

o que tem por desprezível o ímpio
mas estima os que temem o Senhor,
o que não falta ao juramento, mesmo em seu prejuízo,
e não empresta dinheiro com usura
nem aceita presentes para condenar o inocente.

Quem assim proceder
jamais será abalado.

(do Livro dos Salmos - tradução usada na liturgia católica)