31.8.04

[entretanto, estejam atentos à retoma]

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

(...)
Não posso repetir as suas palavras: não as decorei e isto passou-se há muitos anos. E também não entendi inteiramente o que ele dizia. E algumas palavras mesmo não as ouvi, porque o vento rápido lhas arrancava da boca.
Mas lembro-me de que eram palavras moduladas como um canto, palavras quase visíveis que ocupavam os espaços do ar com a sua forma, a sua densidade e o seu peso. Palavas que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas. Palavras brilhantes como as escamas de um peixe, palavras grandes e desertas como praias. E as suas palavras reuniam os restos dispersos da alegria da terra. Ele os invocava, os mostrava, os nomeava: vento, frescura das águas, oiro do sol, silêncio e brilho das estrelas.
(...)

(excerto de Homero, in Contos Exemplares, 1962)
[parto amanhã a caminho de Santiago de Compostela, como peregrino]

DANTE ALIGHIERI

(...)
Então um lume a nós se aproximou
da esfera onde saíra essa primícia
que Cristo por vigário nos deixou;
e a minha dama cheia de letícia,
me disse: «Mira, mira: eis o varão
por quem na terra se vai ver Galícia.»
(...)

(excerto do Canto XXV de Paraíso, in A Divina Comédia, tradução de Vasco Graça Moura, 2ª ed.: Bertrand, 1996)

27.8.04

[para a R.]

EDUARDO WHITE

É ou não é verdade
que a carinhosa maneira como choramos
quando nascemos
surpreende
nossos pés voltados para o ar?

Advirá daí o engenho que escondemos
e que nos faz ambicionar sonhar ou voar?

Não sabemos.
Mas quis a vida tivéssemos,
ao contrário de raízes
como as árvores,
estes olhos para as distâncias
ou então para os sonhos que não fazemos,
não tocamos
e só vemos
quando os temos voltados para dentro. Precisas de colher com o tempo a justa solidão que te refaz. Colher devagar, sem excessos, para que não desesperes e nem morrer te apeteça. Atravessa o silêncio, algum rumor enternece, não é o silêncio tão deserto. Cresce, com o coração em repouso és mais nascente e não se revela o medo. Mede a febre onde a febre se esconde, ouve o sangue silvar, a solidão acordará para a alma a ave que és e não conheces.

(de Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave, editorial Caminho, 1992)

26.8.04

LEOPOLDO MARÍA PANERO

CORRECCIÓN DE YEATS

(Extraída del poema "Prayer for old age")

Dios me proteja de pensar como esos
hombres que piensan solos y
viven por ello de olvidar lo
que pensaron -porque
la mente no está sóla y
Aquel
que canta la canción perdurable
demasiado la siente, demasiado.

Dios me proteja con más que su nombre,
Dios me proteja de ser un anciano
al que todos adulan y llamen
por el vacío de su nombre; oh, qué soy,
¿quién, si no puedo más,
que
parecer -por amor de cantar
entera la canción- siempre un loco?

Rezo -pues las palabras vacías se marcharon
sin ser oídas y sólo la plegaria queda
en pie- para que aun cuando tarde mucho
en morir y en escribir mi nombre
al fin sobre la lápida puedan
un día decir sobre ese frío
que no estuve loco.


(de Narciso en el acorde último de las flautas, 1979)


CORRECÇÃO DE YEATS
(Extraída do poema "Prayer for old age")

Deus me proteja de pensar como esses
homens que pensam sozinhos e
vivem por essa coisa de esquecer o
que pensaram -porque
a mente não está sozinha e
Aquele
que canta a canção duradoura
demasiado a sente, demasiado.

Deus me proteja com mais que o seu nome,
Deus me proteja de ser um velho
a quem todos bajulem e chamem
pelo vazio do seu nome; oh, o que sou,
- quem, se não posso mais,
que
parecer -por amor de cantar
inteira a canção- sempre um louco? -

Rezo -pois as palavras vazias se foram
sem serem ouvidas e apenas a oração fica
levantada- para que mesmo que demore muito
a morrer e a escrever o meu nome
por fim sobre a lápide possam
um dia dizer sobre esse frio
que não estive louco.

(tradução minha)
W. B. YEATS

A Prayer for Old Age


God guard me from those thoughts men think
In the mind alone;
He that sings a lasting song
Thinks in a marrowbone;

From all that makes a wise old man
That can be praised of all;
O what am I that I should not seem
For the song's sake a fool?

I pray - for fashion's word is out
And prayer comes round again -
That I may seem, though I die old,
A foolish, passionate man.


(de A Full Moon in March, 1935)


Uma Oração à Velhice

Deus me guarde daqueles pensamentos que os homens têm
Sozinhos no seu pensar;
Aquele que canta uma canção duradoura
Pensa num osso suculento;

De tudo o que torna sábio um velho
Isso pode ser o mais louvável;
Oh que sou eu que não devia parecer
Para que a canção crie um tonto?

Eu rezo - pois a vã palavra foi-se
E a oração volta a surgir -
Para que possa parecer, ainda que morra velho,
Um homem tonto e apaixonado.

(tradução minha)

10.8.04

HÉLIA CORREIA

Era uma vez um homem que nascera muito sábio. Ora, às vezes, tal facto aborrecia-o muito. Sempre com o nariz enfiado em livros velhos, sempre a escrevinhar relatórios para enviar aos outros sábios que moravam longe - naquele tempo não havia telefone -, sempre a pensar e a repensar, a fazer contas, a espreitar para os céus e para os caldeirões, que coisa! Então não tinha direito a descansar?
Parou e foi abrir uma janela. O sol - se bem que fosse um sol inglês estava cheio de força naquele dia - entrou por ali dentro, todo entusiasmado, porque era muito raro permitirem-lhe fazer uma visita àquele laboratório. Com a pressa, tropeçou contra um prisma de vidro e desfez-se nas suas sete cores. Surgiu um arco-íris na parede.
O sábio percebeu tudo o que se passara ficou ainda mais aborrecido:
- Pronto! Agora estraguei o mistério que havia no Arco-Íris do céu! Não passa de um espectro da luz solar que se refracta nas gotinhas de água. Acabaram-se as histórias sobre as panelas de ouro escondidas no lugar em que ele toca na terra. Ninguém mais verá nele a túnica de Íris, mensageira dos deuses, nem o sinal da paz entre Jeová e os homens. Mas que grande chatice!
Para desanuviar, foi dar um passeiozinho. Mas, como estava pouco habituado a andar, depressa se cansou. Sentou-se à sombra de uma macieira. E vai, caiu-lhe um fruto em cima da cabeça. Estava a saboreá-lo com delícia quando gritou de novo:
- Que chatice!
Descobrira, ali mesmo, as leis da gravidade.

(de A Luz de Newton, Relógio d'Água, 1988)


JOHN KEATS

(...)Do not all charms fly
At the mere touch of cold philosophy?
There was an awful rainbow once in heaven:
We know her woof, her texture; she is given
In the dull catalogue of common things.
Philosophy will clip an Angel's wings,
Conquer all mysteries by rule and line,
Empty the haunted air, and gnomed mine -
Unweave a rainbow, as it erewhile made
The tender-person'd Lamia melt into a shade

(from Lamia - part II, 1820)

4.8.04



[Alberto Giacometti fotografado por Henri Cartier-Bresson]
Maria Filomena Mónica revela hoje, no Público, "O Diário Secreto de Santana Lopes com a Idade de 48 Anos", onde, às tantas afirma: «(...)o Prof. [Boaventura] Sousa Santos declarava estar "Portugal no grau zero das alternativas". Se fosse a ele, estava caladinho. Caso contrário, ainda divulgo os poemas que publicou, num livrinho chamado Têmpera, editado pela Centelha, em 1980, sobre as "rachas das meninas".»

Antecipando a ameaça, passo a transcrever, do referido livro, um excerto (o poema é longo...) da

ODE À INFÂNCIA

(...)
são muitas as horas da tarde
quando as mãos do último cigarro
esfregam em louro
o triunfo sobre a autoridade
a moral escarpada da verdura
resvala dos cerros como a lua nova
alagada de medo
escancaram-se as cancelas
das secretas construções
nas ruínas do ciclone de quarenta
trabalhos manuais sem mestre nem montra
entram chefes guerras caracóis
tesouras e pauzinhos
nas rachas das meninas
na catequese é em coro
e em filas
no escuro dos intervalos
medem-se as pilas
Boaventura tens quebranto
dois te puseram três te hão-de tirar
se eles quiserem bem podem
são as três pessoas da Santíssima Trindade
que é Pai, Filho e Espírito Santo
mexo nos anos sinto nas mãos
a moleza da cera não fere
alastra
(...)

[o livro em questão é o nº 33 da colecção Nosso Tempo, que foi antecedido por Afluentes de Abril do conhecido advogado Celso Cruzeiro - apesar disso dessa colecção também fazem parte livros notáveis da poesia portuguesa dos anos 70]

3.8.04

MARGUERITE DURAS

- Despache-se a falar. Invente.
Ela fez um esforço, falou quase alto no café ainda deserto.
- O que seria preciso era habitar uma cidade sem árvores as árvores gritam quando há vento aqui há sempre sempre à excepção de dois dias por ano no seu lugar está a ver eu iria embora daqui não ficaria aqui todos os pássaros ou quase todos são pássaros do mar que se encontram mortos depois das tempestades e quando a tempestade pára e as árvores deixam de gritar ouvimo-los gritar sobre a praia como degolados isso impede as crianças de dormir não eu ia-me embora.
Ela deteve-se, os olhos ainda fechados pelo medo. Ele olhou-a com uma grande atenção.

(excerto de Moderato Cantabile, 4ª ed.: Difel, 2002 - tradução de Flora Larsson e Ana Paula Laborinho)

2.8.04

JOSÉ AFONSO

Por Trás Daquela Janela


Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei

Se a minha faca cortasse
Se aquela parede andasse
E grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer

Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar

Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Na noite que segue o dia
Na noite que segue o dia
O meu amigo lá dorme
De pé

E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré

Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão

Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão

(do álbum Eu vou ser como a toupeira, 1972)

1.8.04

[Faz hoje 27 anos que morreu o cardeal Cerejeira]

MÁRIO BEIRÃO

FALA DUM PASTOR
(NA GRANDE FESTA DE BEJA)


(Ao Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira)

Aqui, neste solene descampado,
- Plaino de cismas e melancolia -
Tudo se volve a Deus; tudo irradia
Graça, Esperança, Espírito Sagrado:

E, nos sulcos abertos pelo arado,
Germina luz, um sonho, um novo dia;
E, do ocaso na mística elegia,
Brilham as chagas do precioso Lado!

Esta é a planície, que o silêncio embala,
- A grã planície, resplendente de oiro...
Que ela desperte ao som da vossa fala!

- Ó Príncipe da mais augusta igreja,
Por vosso influxo, a um gesto imorredoiro,
O pão do amor multiplicado seja!

(de O Pão da Ceia, edições Ática, 1964)


JORGE DE SENA

De púrpura andas vestido
Que Roma te concedeu
para que humilde defendas
o direito dos humildes
em Terras de Portugal.
Ai cardeal, cardeal!

Mas a mitra que te cobre
não te dói mais que os espinhos
na cabeça do teu Mestre.
Doem-te os cornos dos ricos
das terras de Portugal.
Ai cardeal, cardeal!

9 de Dezembro de 1956

(de Dedicácias, Três Sinais editores, 1999)

31.7.04

[a ironia da canção dos Xutos]

É amanhã dia 1 de Agosto
e tudo em mim é um fogo posto

28.7.04

Genocídio em Darfur

O Nuno da Rua da Judiaria tem estado a chamar a atenção, desde sexta-feira, para o genocídio que está nestes dias a acontecer no Sudão.

O boletim da Agência Ecclesia desta semana, também denuncia a situação e dá conta de alguns esforços que estão a ser desencadeados. Transcrevo:

«Ajuda para o Sudão
O enviado especial de João Paulo II ao Sudão, o arcebispo Josef Cordes, pediu aos católicos do mundo que se mobilizem por meio das instituições católicas de assistência, como a Cáritas, para sair em ajuda das populações do Darfur. O arcebispo, presidente do Conselho Pontifício "Cor Unum", fez uma análise dramática da situação no Darfur, região ocidental do Sudão, numa entrevista concedida à agência televisiva Rome Reports.
"Fala-se de dois milhões de refugiados, é um genocídio como o do Ruanda, mas em câmara lenta", assegura. Para explicar a origem do conflito, o prelado refere que "o povo sentia que não era bem tratado. Deste modo, criou-se um grupo de rebeldes que empreendeu a guerra contra o governo, contra o Estado". "Agora o governo actua contra eles para restabelecer a ordem e não parece que o faça da melhor maneira. Utiliza grupos milicianos tribais para atacar a população de Darfur", explica o arcebispo, após constatar que cerca de dez mil pessoas morreram neste conflito regional nos últimos meses.
A Caritas Internacionalis fez um apelo de forma a recolher dezoito milhões de dólares para levar ajuda, água, medicamentos e construir refúgios no Darfur. O presidente do "Cor Unum", que visita em nome de João Paulo II os locais do mundo mais afectados pela guerra ou pelas catástrofes naturais lamenta que o governo de Cartum "não facilite o acesso para fazer chegar estas ajudas às populações" e pede que "a comunidade internacional faça pressão sobre o governo do Sudão".
A Caritas Internationalis, confederação de 154 organizações católicas de ajuda, desenvolvimento e serviço social, já alertou para os números da crise humanitária no Darfur, província sudanesa, assinalando que mais de 1 milhão e 200 mil pessoas foram forçadas a abandonar os seus lares e estão espalhadas por um território duas vezes superior ao de França. As Nações Unidas estimam que mesmo que a ajuda internacional seja imediatamente entregue, 300 mil pessoas estão em risco de morte.»

Entretanto, a mesma agência acrescenta on-line mais desenvolvimentos.
Hoje é dia da Terra da Alegria
MIGUEL CASTRO HENRIQUES

O rapaz subiu a um banco de jardim todo coberto de folhas caídas e disse para quem o quisesse ouvir:
«Esta tarde não quero ter nome!»
E embora o tivesse dito com voz firme e sonora ninguém pareceu tê-lo ouvido.

(início de um conto de Uma Menina de sete Gatos ou O Saldo de Euler, Assírio & Alvim, 1992 - peninsulares / literatura)