14.12.03

DANIEL FARIA

DO LIVRO PRIMEIRO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ 3


A princípio as palavras alumbram. Porque no escuro
O coração pára de correr. Secando a água
Secam os caminhos, perdem-se os companheiros
De viagem, perdem-se as casas dos vizinhos.
A noite a princípio é o homem sem casa, é o lugar
Em silêncio. É a humildade humedecendo
O corpo descalço e consumido.

A noite activa a noite - é um motor imenso
De lume. O arbusto a princípio é a própria inclinação
Da cabeça
Queimada nos cabelos, consumida em pensamentos

A princípio não se entende a sede, a inclinação, o vazio
E vamos cavando de lugar em lugar a expansão
Do arbusto que transborda. De toda a terra
à alma é a mais árida - um imenso motor em chama
Nos mecanismos da viagem ardente

A princípio não se sente
O amor - a humidade amanhecendo
O coração ressequido

(de Dos Líquidos, Fundação Manuel de Leão, 2000 - este livro foi reeditado recentemente, juntamente com outros e com poemas inéditos, pelas edições Quasi)
Senhor, que inspiraste ao vosso sacerdote S. João da Cruz um extraordinário amor à cruz e uma perfeita abnegação de si mesmo, concedei que, imitando o seu exemplo, cheguemos à contemplação eterna da vossa glória. Por nosso Senhor.

(da Liturgia das Horas)
São JOÃO DA CRUZ, presbítero e doutor da Igreja

Nasceu em Fontiveros, província de Ávila (Espanha) pelo ano de 1542. Depois de ter passado algum tempo na Ordem dos Carmelitas, foi o primeiro entre os seus irmãos de Religião que, a partir de 1568, persuadido por Santa Teresa de Ávila, se declarou a favor da reforma da sua Ordem, tendo suportado, por isso, inumeráveis sofrimentos e trabalhos.
Morreu em Úbeda, a 14 de Dezembro, no ano 1591, com grande fama de santidade e sabedoria, de que dão testemunho os seus escritos espirituais.


(...) falando agora segundo o sentido e afecto da contemplação e conhecimento das criaturas a alma vê que há nelas tanta abundância de graças e virtudes e formosura com que Deus as dotou, que lhe parece estarem todas vestidas de admirável formosura e virtude natural, derivada e comunicada naquela infinita formosura sobrenatural da figura de Deus, cujo olhar veste de formosura e alegria o mundo e todos os céus; assim como também pelo abrir de sua mão enche de bênção todos os viventes, como diz David (Salmo 144, 16). E portanto, a alma, chagada em amor por este rastro de formosura do Amado que conheceu nas criaturas, em ânsias de ver aquela invisível formosura, que esta visível formosura causou, diz a seguinte canção:

CANÇÃO VI

Ai!, quem pod'rá sarar-me?
Entrega-te, em arroubo verdadeiro;
Não queiras enviar-me
Mais nenhum mensageiro,
Que não sabem dizer-me o que requeiro.

(...)

Como se dissera: eu quero-Te todo a Ti, e eles, os mensageiros, não me sabem nem podem dizer a Ti todo; porque nenhuma coisa da terra nem do céu pode dar à alma a notícia que deseja ter de Ti, e assim não me sabem dizer o que eu quero. Em lugar destes mensageiros, sê Tu o mensageiro e as mensagens.

(a tradução das anotações é a das Obras Completas, edições Carmelo, 5ª ed: 1986; a tradução da Canção é a de José Bento em Poesias Completas, Assírio & Alvim, 1990, que inclui gravuras de Ilda David')

13.12.03

[para acalmar do delírio panfletário-esquerdista de ontem, mas também a propósito da barulheira (vinda de todos os lados) sobre o aborto...]


Veni, Creator spiritus
Mentes tuorum visita:
Imple superna gratia
Quae tu creasti pectora;

Qui Paraclitus diceris,
Donum Dei altissimi,
Fons vivus, ignis, caritas,
Et spiritalis unctio;

Tu septiformis munere,
Dextrae Dei tu digitus,
Tu rite promisso Patris
Sermone ditas guttura

Accende lumen sensibus;
Infunde amorem cordibus;
Infirma nostri corporis
Virtute firmans perpeti.

Hostem repellas longius,
Pacemque dones protinus,
Ductore sic te praevio
Vitemus omne noxium.

Per te sciamus da Patrem,
Noscamus atque Filium;
Te utriusque Spiritum
Credamus omni tempore.

[de preferência com a música de Orlandus Lassus (1532-1594)]

12.12.03

JOSÉ ALEXANDRE GUSMÃO

PEDAÇO DE MUNDO - COLÓNIA


Guarida doentia de neo-pensadores
activistas de barriguismo
(herança de tradições viciosas)
e
defraudados
que exibem maquiavelismo político

- túmulo de origem etno-geo-cultural -
empacotado no país modelo
a esportular concessões de democracia,

descambando em sacrílegas declamações
propensas de cabotinismo fácil

PEDAÇO DE MUNDO - 1/2 DE ILHA

acervo de miopias
na encenação

da incapacidade humana/impotência do solo,
paraplexia de espíritos receosos
da derrocada da aristocracia injuriosa
ou
chafurdeiros
a inquinar a mente, o raciocínio

de centenas de almas

PEDAÇO DE MUNDO - FRENTE

...luta aberta
de almas jovens

que tua decisão - mutação - responsabilidades
não decline a arroubo estéril
mas orgulho tenaz e fecundo -
complemento da intrepidez e labor do povo
e confiança no potencial,
em potencial,

inexplorado,
antes identificado improdutividade,
limitada em esmolas irrisórias
a definir degraus, em despojos irreverentes.
à mão estranha


PEDAÇO DE MUNDO - TIMOR-LESTE

Incoação vibrante
em ombro-a-ombro terra-povo,

geração ufana
suando s/ liberdade no trabalho

clamor de ordem
a emoldurar teu empenho...
Bandeira a tremular
no écran

de CRENTES e DESCRENTES

Timor-Leste, 1974

(da antologia Timor-Leste / poesia, Instituto Nacional do Livro e do Disco, Maputo, 1981)
BORJA DA COSTA

Nasceu em 1946, em Timor Leste.
Morreu no dia 7 de Dezembro de 1975, em Díli, durante a invasão.

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Calai
Montes
Vales e fontes
Regatos e ribeiros
Pedras dos caminhos
E ervas do chão,
Calai

Calai
Pássaros do ar
E ondas do mar
Ventos que sopram
Nas praias que sobram
De terras de ninguém,
Calai

Calai
Canas e bambus
Arvores e "ai-rús"
Palmeiras e capim
Na verdura sem fim
Do pequeno Timor,
Calai

Calai
Calai-vos e calemos-nos
POR UM MINUTO

É tempo de silêncio
No silêncio do tempo
Ao tempo de vida
Dos que perderam a vida

PELA PÁTRIA
PELA NAÇÃO
PELO POVO
PELA NOSSA
LIBERTAÇÃO
CALAI - UM MINUTO DE SILÊNCIO...



O RASTO DA TUA PASSAGEM

Silenciaste minha razão
Na razão das tuas leis
Sufocaste minha cultura
Na cultura da tua cultura
Abafaste minhas revoltas
Com a ponta da tua baioneta
Torturaste meu corpo
Nos grilhões do teu império
Subjugaste minha alma
Na fé da tua religião

SAQUEASTE
ASSASSINASTE
MASSACRASTE
ESPOLIASTE
PILHASTE

Minha terra, minha gente
Banhada em sangue
Escorraçada, exangue

Barbaramente civilizaste na demagogia da tua grei
Brutalmente colonizaste na ambição da tua grandeza

Na ponta da tua baioneta
Assinalaste o rasto da tua passagem
Na ponta da minha baioneta
Marcarei na História a forma da minha
LIBERTAÇÃO.


(da antologia Timor-Leste / poesia, Instituto Nacional do Livro e do Disco, Maputo, 1981)
JOSÉ AFONSO

OS FANTOCHES DE KISSINGER


Em toda a parte baqueia
A muralha imperialista
Na ponta duma espingarda
Os povos da Indochina
Varrem da terra sangrenta
Os fantoches de Kissinger

Mas aqui também semeias
No pátio da tua fábrica
No largo da tua aldeia
A fome, a prostituição
São filhas da mesma besta
Que Kissinger tem na mão

Valor à Mulher Primeira
Na luta que nos espera
Só não há vida possível
Na liberdade comprada
Na liberdade vendida
A morte é mais desejada

A NATO não chega a netos
Abaixo o hidrovião
Na ponta duma espingarda
O Povo da Palestina
Mandou a Golda Meir
Uma mensagem divina

Da CIA não tenhas pena
Tem carne viva nas garras
É a pomba de Kissinger
Toda a América Latina
Se lembra das suas farras
A mesma tropa domina

A mesma tropa domina
Só um é embaixador
Mas nada nos abalança
A dormir sobre a calçada
Faz como o trabalhador
Dorme sobre a tua enxada

Faz como o atirador
Dorme sobre a espingarda

(do álbum Com as Minhas Tamanquinhas, 1976)
O Tchernignobyl, colaborador do BdE, escreveu, no dia 7 deste mês, dois apontamentos sobre Henry Kissinger, vencedor do prémio Nobel da Paz em 1973. No primeiro fala do curriculum invejável do "diplomata" e pouco depois dá o exemplo da "democrática" atenção que teve com Videla, na Argentina.
Ora fazia nesse mesmo dia 28 anos que Kissinger estava em visita de "negócios" a Jacarta, enquanto uma força de pára-quedistas consumava a anexação do que viria a ser considerado (indevidamente, claro) a "27ª província da Indonésia" - Timor Leste.
De seguida fica a evocação do tal "promotor da paz" feita por Zeca Afonso, num tempo em que não havia correcções políticas e em que os blogues eram também em vinil, bem como uns poemas timorenses bem marcados pela época.

11.12.03

HENRI MICHAUX

Passagem.
O gosto de ocultar venceu. Venceram a reserva, a prudência, a discrição natural, a instintiva tendência chinesa para apagar vestígios, para evitar encontrar-se a descoberto.

O prazer de manter escondido venceu. Assim a escrita passou a estar ao abrigo, passou a ser um segredo; segredo entre iniciados.

Segredo difícil, longo, custoso de partilhar, segredo para fazer parte de uma sociedade. Círculo que durante séculos e séculos vai permanecer no poder. Oligarquia dos subtis.

(excerto de Idéogrammes en Chine, 1986 / Ideogramas na China, livros Cotovia, 1999 - Série Oriental - tradução de Ernesto Sampaio)
os anjos e a escada rolante do centro comercial

Na sequência de um almoço que não paguei (e não agradeci...), o Tiago compara-me a um anjo "Com quase tantas qualidades quanto Gabriel". Fico tão encavacado (hehe) como ele ficaria se eu lhe mandasse o mesmo piropo.

Depois do almoço o Tiago confessa-me que conhecia pouca coisa do Chesterton, mas no entanto não tenho dúvidas de que o seu "estilo" (à falta de melhor termo...) é pertinentemente chestertoniano, o que foi confirmado, numa escada rolante, por um outro amigo, que entretanto aparecera.

9.12.03

ANDRÉ BRETON

De Rimbaud, em 1913, só conhecia algumas peças de antologia. Ignorava ainda a sua famosa fórmula de rejeição:"A mão de caneta vale a mão de charrua. Que século de mãos! Nunca terei a minha!" Por meu lado, não era menor a repugnância que sentia por todas as "carreiras", incluindo a de escritor profissional. "Horror de todos os ofícios", insistirá Rimbaud...

Para si, alguma coisa se salva nessa época?

Salva-se o que a poesia e a arte puderam produzir de mais raro (...)

(de uma conversa radiofónica com André Parinaud, em 1952, incluída em Entrevistas, edições Salamandra, 1994)
MANUEL DE FREITAS

A poesia é uma realidade histórica, queiramos ou não.

(do prefácio a poetas sem qualidades, Averno, 2002)
GERARDO DIEGO (1896-1987)

No debemos huir de nada. El arte se ha de hacer buscando, reuniendo, integrando. Hacemos decimas, hacemos sonetos, hacemos liras, porque nos da la gana. Magnífica razón, única plena del artista. Pero hay una diferencia con nuestros razonables abuelos del XVIII. Para ellos, la estrofa, la sonata o la cuadrícula eran una obligación. Para nosotros, no. Hemos aprendido a ser libres. Sabemos que esto es un equilibrio, y nada más.

(citado por Pedro C. Cerrillo, em Antología Poética del Grupo del 27, ediciones Akal, 2002)

8.12.03

G. K. CHESTERTON

Eu sempre abriguei o sentimento confuso de que havia alguma coisa de sagrado na raça inglesa, ou na raça humana, e isso me separava do pessimismo da época. Nunca duvidei que os seres humanos no interior das casas eram eles próprios quase milagrosos, como bonecas mágicas e talismânicas dentro de horríveis caixas de bonecas. Para mim, aquelas caixas de tijolos castanhos eram realmente caixas com presentes de Natal. Porque, além do mais, as caixas de Natal vêm muitas vezes embrulhadas em papel pardo. E as obras de tais construtores baratos, feitas de tijolos castanhos, eram muitas vezes semelhantes a papel pardo.

(da Autobiografia, trad. e notas de Luís de Sousa Costa, Livraria Morais editora, 1960 - Círculo do Humanismo Cristão)
SERVIÇO METEOROLÓGICO PARISIENSE NA BLOGOLÂNDIA

A semana passada estavam 3 graus constantemente. Hoje ficamos a saber que -5° C é a temperatura lá fora, o que coincide com estão temperaturas negativas lá fora.