12.10.05

[hoje é dia]

JOSÉ AUGUSTO MOURÃO


jubilação de nomes

ajuda-nos, Deus,
a sair do labirinto das coisas (mal)ditas,
a meada da retórica
que debita a máscara

tu que és a graça e o rigor
das linhas desenhada,
a onda que regressa e que advém
neste intervalo de terra prometida
e de deserto

empresta ao nosso ouvido
a graça da rocha mãe do solo,
a cedência ao ritmo do que vem de longe,
e se não prescreve

e que a tua alegria permaneça

(de dizer DEUS ao (des)abrigo do Nome, Difusora Bíblica, 1991)

11.10.05




RUY VENTURA

memória


mal oiço o som do alaúde em tua casa.
não consigo ver a pomba
voando sobre a cinza,
no sepulcro da ruína e desta alma.
exumei com os olhos
o mosaico que rodeava, talvez, esse coração ?
mergulhado na água e na melodia.

séculos depois, encontro esse rosto
tão cedo escondido.
desenhado no mármore.
como numa fotografia.
esse sorriso escavando a penumbra da nave ?

a iluminação das lágrimas
no interior do vidro.

Mérida - estela funerária de Lutatia Lupata (séc. II d. C.)

(do inédito Habitação do Tempo, gentilmente enviado pelo Autor)

2.10.05

DINIS MACHADO

Qual é o lado cómico disto?


Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e confrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado cómico disto? Daí a fazer a pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica - até o leito do sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado cómico disto?

(...)

Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.
Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor do que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura, o corpo de borracha e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.

(excerto de Reduto Quase Final, Bertrand editora, 1989)

1.10.05

PAULO TEIXEIRA

DECLÍNIO DO TURISMO


Estas praias vazias enfrentam confundidas
o deus ocioso das águas e o outono: o mar
implicado com a nossa sede e as nuvens
que, ausentes, nos oferecem ainda um tardio verão.
Toda a fauna partiu: os senhores devolutos
do mundo deixaram-nos o vento que nos afaga
hoje o rosto e as areias desertas.

Esses oportunos visitantes do estio, poetas e aves
que as suas odes ineficazes escreviam às portas
do entardecer, tornaram a casa para consumirem
a substância do tempo sob os rigores e o Inverno
de outras paisagens, louvando com devoções outonais
a sua escrita, o tempo, a imagem insegura da decadência.

Cada coisa declina no lugar da sua origem.
Conhecemos frente ao Mediterrâneo a perplexidade
de um mundo que alcança a sua última disposição,
sem nela poder acreditar. Terra sem ombros e sem timão
que se afunda dia a dia no vale excessivo de estrelas
que nos esconde de nós o Lúcifer celeste.

(de Conhecimento do Apocalipse, & etc, 1988)

28.9.05

Não estou presente hoje na Terra da Alegria, mas Vital Moreira, no Causa Nossa teve a gentileza de publicar uma mensagem que lhe enviei ontem procurando estabelecer um paralelo entre os encontros do Papa com a Fraternidade S. Pio X e com Hans Kung.
Vital Moreira responde referindo que "foram precisos dois meses para que Bento XVI 'compensasse'" um encontro com o outro, acrescentando a dúvida de este se ter devido "às reacções negativas causadas pelo primeiro", mas não repara que na notícia da Agência Ecclesia a que faz ligação se diz que, segundo o próprio Kung, "o encontro do passado sábado resultou de uma troca de correspondência com o Papa, começada pouco tempo depois da eleição de Joseph Raztinger" (sublinhado meu).
Por outro lado destaca o facto de desta vez não ter havido "os votos de trabalhar em conjunto para uma 'perfeita comunhão'" como com os herdeiros de Lefevre. Ora, tal coisa seria muito de estranhar com o teólogo, pois este, ao contrário dos dirigentes da Fraternidade S. Pio X, não está em situação de excomunhão.
[hoje é dia
da
Terra da Alegria]

DOM HÉLDER CÂMARA

TERRA, IRMÃ TERRA!


Ensina-nos
a continuar a Criação,
ajudando as sementes
a multiplicar-se
preparando alimento
para os homens
e os animais!

Ensina-nos
a causar a alegria
que não te cansas de oferecer
quando viajantes cansados te descobrem
como sinal próximo de chegada!

Ensina-nos
a criar o horizonte
numa imagem belíssima
da grandeza da Criação!

Ensina-nos
a aceitar a mediação
de quem nos quer unir a irmãos,
como aceitas o papel da água
que une terra a terra,
por maiores que sejam as distâncias!

Como te sentes nos desertos?
com que visão contemplas o homem
que, sendo capaz de transformar
desertos em terra fértil,
está preferindo ser
terrível criador de desertos?

Como te alegras
com a chuva quete fecunda
e como te afliges
com as chuvas que te alagam,
destruindo plantações,
casas e vidas
de animais, de plantas, de homens?

Que lição imensa
nos dás,
Terra,
mais que irmã:
mãe-Terra!

(de Quem não Precisa de Conversão?, edições Paulinas, 1987)

24.9.05

"POESIA" AUTÁRQUICA

É urgente, nestas autárquicas, fazer o levantamento de frases de campanha que utilizam as palavras amor, coração e o verbo amar.

23.9.05

AMADEU LOPES SABINO

- Não busco adeptos - retorquiu Laureano após um silêncio. - E o proselitismo é algo que intelectualmente me repugna. Sim, entendo o artista, sobretudo o pintor, como um legislador, em certa medida, até, como um artífice de normas por via ditatorial. A criação artística não é um fenómeno colectivo mas solitário. Por isso a democracia não me parece possível na criação artística. É colectivamente que os comerciantes negoceiam, os sacerdotes rezam, os médicos curam e as prostitutas se oferecem. Desconfio contudo das associações de artistas. E sempre considerei as obras a duas mãos meros divertimentos pueris.

(excerto de Os Relicários, in O Retrato de Rubens, publicações Dom Quixote, 1985)

20.9.05

ÀLEX SUSANNA

NOCTURNO


Na sombra qualquer passo significa.
Fecha-te e escuta:
verás surgir na obscuridade
as brasas da memória,
a gotejar de um deserto,
o cheiro húmido.
Fecha-te e escuta
e não esperes nada,
tudo te será dado:
na sombra os triunfos
contam-se por clarões,
e o clarão basta
no fundo do coração
para chegar a compreender.

(de Palácio de Inverno, 1987, in Os Anéis do Tempo, tradução de Egito Gonçalves, Limiar, 1995 - os olhos e a memória)

18.9.05

ALBERTO DE LACERDA

ON HEARING MARIANNE MOORE
READING HER POETRY


Um pássaro Uma voz atravessada
Pelas nuvens da eternidade
Um pássaro Princesa
Suave dos animais estranhos
Das rochas dos límpidos encontros
Dama do esplendor consistente
Bronze preso à vida por um fio
gieseking Scarlatti
Marianne Moore

Austin,
2 de Maio de 1968

(da sequência Mecânica Celeste, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)
MARIANNE MOORE

PARA UMA AVE DE PRESA


Convéns-me, pois nem sequer te tomo a sério,
e não ficas cega pela palha que rodopia
ao ser trazida de uma meda pelos ventos.

Sabes pensar e o que pensas dizes
com muito do orgulho e fria firmeza
de Sansão, e ninguém ousa deter-te.

O orgulho assenta-te bem, tão empertigada, ave colossal.
Nenhuma capoeira te faz parecer absurda;
às tuas garras atrevidas são fortes, contra a derrota.

(de Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras - colecção o aprendiz de feiticeiro)
ALBERTO DE LACERDA

ELEGIA ESCRITA EM NEW ORLEANS
A 6 DE ABRIL DE 1968


A todos os negros assassinados
Humilhados e ofendidos

Hoje não estamos sós
Há cinco músicos negros tocando na noite
Hoje não estamos sós
Há um luar negro cobrindo a sucessão
Das ondas incompreensíveis
Mar de luto
Ó mar americano
De luto

Hoje não estamos sós
Há uma canção espessa
(Espessa como o sangue)
Redimindo a noite

Há cinco músicos negros

Há uma cantora negra
Sozinha na noite
No meio de nós

Hoje não estamos sós
Há cinco músicos negros tocando na noite
Irmãos da noite

Minha irmã
Meus irmãos

(da sequência Mecânica Celeste, in Oferenda II, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994)