4.10.13

ANTÓNIO GANCHO


MÚSICA

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.


(de O Ar da Manhã, Assírio & Alvim, 1995)

3.10.13

CARLOS BESSA


SAÍDAS PROFISSIONAIS

De repente, sem pose nem porquê,
desata a escrever como um vidente,
como um Rimbaud. Ele, o revoltado,
que publicará não tarda três ou quatro
poemas numa dessas revistas que
ninguém lê e que o tempo tornará
raridade, se contiver nomes que
sonem, que façam a alegria de
alfarrábios e coleccionistas.
Mas por ora é apenas silêncio,
sufoco. Ninguém lhe diz nada, nem mesmo
os amigos mais chegados. E como
ainda não sabe que a literatura
é sempre essa alquimia de esperar,
vai-se esquecendo. O ritmo é outro.
Não o dos versos, mas o da carreira.
Tornar-se-á um gestor de primeira e
acabará os dias rico e feliz,
a dizer aos netos que a poesia é
uma mentira e que ele teve sorte,
abriu os olhos a tempo.



ALÍVIO RÁPIDO

A idade da poesia cedo nos abandona.
A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,
obriga-nos às flexões da fala e encobre,
com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.
Como se falar fora maneira de transformar
o menos em muito, e assim em paz com os sonhos
e com menos ânsias nos dedicássemos
à arquitectura das grandes causas,
a família, o emprego, as heranças.
Morre-se tanto à espera da sorte grande.
Por isso, quando dizes amanhã todo eu me esforço
por não cair no mau teatro dos cúmulos,
o do forno, o da panela ao lume. Mas, confesso,
as palavras enchem-se de crude e empoladas
e vulgares, nesse tom tão rente ao risível,
não dizem, planam, afectadas, vazias.
Só depois me lembro que o amanhã é próprio
da meteorologia e que esperar
foi sempre um propósito digno. Mais não seja
porque o coração precisa de uma ginástica
rude, que o endureça e torne elegante.


(de Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007)

2.10.13

WALLACE STEVENS


XIX

Quem me dera que pudesse reduzir o monstro a
Mim mesmo, e pudesse então ser eu mesmo

Face ao monstro, ser mais do que parte
Dele, mais do que o monstruoso tocador de

Um dos seus monstruosos alaúdes, não ser
Só, mas reduzir o monstro e ser,

Duas coisas, as duas em simultâneo numa,
E tocar do monstro e de mim mesmo,

Ou melhor, não de mim mesmo de modo algum,
Mas de algo como a sua inteligência,

Sendo o leão no alaúde
Perante o leão encerrado em pedra.


(de O Homem da Viola Azul, tradução de Maria Adelaide Ramos, Relógio d'Água, 2005 / The Man with the Blue Guitar, 1937)
ROBERT BRINGHURST


II

O pássaro é da cor do bronze duro
à luz solar, porém agora é meia-noite;
o pássaro da cor do bronze duro
à luz solar voando agora
sob a Lua.

Há um ponto em que
os meridianos se encontram num nó
de nada e uma região
onde os meridianos se desfiam e entrelaçam,
mas não como linhas ancoradas; desfiam-se
quais condutoras e arrastadas bordas
de asas, correndo do vazio
para o músculo e do músculo de novo se esticando para trás.

Escuta: os sons são os sons dos meridianos
chilreando, meridianos arrastados para produzirem
a ilusão de plectro, afinando cravelhas e um arcaboiço,
ou porventura a fim de produzirem a audição
de Elias: a pele
do silêncio a salgar,
sendo curtida,
endurecendo para o interior do vento.

Ou então os sons são os sons do ar a abrir-se
sobre o bico e a fechar-se sobre as asas,
abrindo-se por sobre o inamovível carregamento amarrado
entre a espinha e a garra,
amarrado entre o osso da asa e o cérebro.



(de A Beleza das Armas, tradução de Júlio Henriques, Antígona, 1994)

1.10.13

TIAGO PATRÍCIO


OS FALCÕES PEREGRINOS DO ANTIGO TERRITÓRIO DE NOVA YORK

O chefe índio Dois Pássaros baloiçava as tardes
com a mescalina oferecida pelos Falcões Peregrinos
siameses pela cauda como duas visões do mundo

Um era verde e o outro azul como espinhos
O azul cuspia fogo numa planície da altura das monções
engordava como um dragão a sufocar a terra
e enrolava restos de gente pelo vale estéril

O verde corria pelo golfo à hora de maior calor
deslocava os rios como mulheres nubladas
e quando descia à pátria deixava um hálito fundo
com o lamento de um retornado

O chefe índio perguntou
até onde durava a violência
e quando poderiam voltar àquela terra
E eles disseram coisas indistintas e
falaram do ar pesado durante muito tempo
com as asas um do outro até acabar a mescalina
e começar outra forma de aturdimento



(de O Livro das Aves, Quasi edições, 2009)

30.9.13

MIGUEL-MANSO


escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais

não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer

corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer


(de Aqui podia viver gente, Primeiro Passo, 2012)

27.9.13

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Exigir que a obra de arte tenha uma regulação perfeitamente lógica, resulta do equívoco de confundir dois níveis sucessivos, mas diferentes, do intelecto, o qual não pode ser apenas limitado à sua actividade porventura mais pura, mas também mais convencional: a do discurso lógico e racional. Na poesia e na arte clássicas, a intuição criadora submetia-se a uma organização lógica que não as impedia, efectivamente, de atingir a realidade poética através da combinação das qualidades sensíveis que, quer a poesia, quer qualquer forma de arte, põem em jogo. Todavia, essa superestrutura lógica interpunha-se como um obstáculo ao livre desenvolvimento da imaginação e da emoção criadoras. Na poesia e na arte modernas, o processus criador liberta-se completamente da regulação lógica, desenrolando-se através de estruturas próprias, que se organizam não-racionalmente em ordem a uma nova realidade que se torna, assim, fruto mais directo e mais fiel da inicial intuição criadora. O facto de não haver regulação lógica não destitui a obra de uma estrutura coerente, nem de uma significação própria: pelo contrário, a sua estrutura e significação ganharam um grau de pureza e densidade específicas, que são a resultante inevitável da evolução histórica dos processos artísticos.
De tudo isto se conclui a necessidade de revisão do conceito de poesia e de obra de arte, que já não podam aferir-se pelos critérios do passado. As relações entre obra de arte e espectador sofreram já uma alteração substancial. O conceito de obra «aberta» implica uma nova comparticipação do consumidor estético. A uma poética do unívoco, que corresponde a um mundo estático, sucede-se uma poética de polivalência e ambiguidade, onde tudo é movimento. Mas tal processo não se iniciou sequer no século passado: é um processo que remonta à perspectiva dinâmica que nos oferece a arte barroca, como acentua Umberto Eco. É a partir daí que as poéticas «tendem a promover estas atitudes de invenção criadora do homem novo, que já não vê na obra de arte um objecto de pura dilecção estética, fundado em relações explícitas, mas um mistério a penetrar, um fim a atingir, um apelo permanente à imaginação». Através de uma criação livre, o artista continua a procurar e a descobrir a sua unidade com o universo, de que comparticipa numa aventura sem fim.»


(excerto de «O Poema, sua Génese e Significação», in Poesia Liberdade Livre, 2ª edição: Ulmeiro, 1986 - artigo publicado originalmente em 1960)

23.9.13

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Em qualquer parte um homem
discretamente morre

Ergueu uma flor
Levantou uma cidade

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri


(de Viagem através de uma Nebulosa, 1960)

22.9.13

GABRIELA MISTRAL


UMA PALAVRA

Eu tenho uma palavra na garganta
e não a solto, não me livro dela
mesmo com todo o empurrão do sangue
Se a libertasse, queimaria pastos,
sangraria cordeiros, cairiam pássaros.

Eu devo desprendê-la desta língua,
encontrar um buraco de castores,
sepultá-la com cal e argamassa
pra que não guarde como a alma o voo.

Não quero dar sinais de que estou viva
enquanto circular pelo meu sangue
e suba e desça no meu louco fôlego.
Embora o meu pai Job, ardendo, a tenha dito,
não quero dar-lhe a minha pobre boca
para que não a encontrem as mulheres
que vão ao rio, se prenda às suas tranças
ou se enrede no pobre matagal.

Violentas sementes vou lançar-lhe,
pra que uma noite a cubram e a afoguem
sem deixar dela o rasto de uma sílaba.
Ou destruí-la assim, tal como a víbora
se parte em dois pedaços entre os dentes.

E regressar a casa, entrar, dormir,
já isolada, separada dela,
e acordar depois de dois mil dias,
recém-nascida em sono e esquecimento.

Sem saber, ah!, que tive uma palavra
feita de iodo e alúmen entre os lábios,
nem poder recordar-me de uma noite,
de uma morada num país alheio,
da cilada ou relâmpago na porta,
a minha carne a andar sem sua alma.


(in Antologia Poética, selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral, Teorema, 2002 - original de Lagar, 1954)

17.9.13

JORGE DE SENA

[...] como sublinhei, indirectamente num dos “exorcismos”, não sou dos tolos que voltam para o anonimato quotidiano por parte destes ladrões de estrada, que compõem, com honrosas excepções, esta pátria de alguns heróis e muitos malandros. No entanto, sente-se finalmente uma efervescência e uma consciencialização indignada, a todos os níveis populares, de que é preciso sair do beco e “andar para a frente” – e, sobretudo, uma revoltada exigência de que a ladroeira e a negociata sejam postas na ordem (o que pode, também, abrir caminho a todos os perigos – mesmo de D. Sebastiões chamados Spínolas).

(carta a Helder Macedo, datada de «Lisboa, 17 de Agosto de 1972»)

16.9.13

VÍTOR NOGUEIRA


GEOLOGIA

Às vezes são homens de bem
empurrados para esta vida,
resquícios da erosão da montanha,
paisagens antigas
enterradas sob o gelo.

Nada está garantido
numa geologia tão frágil. Este chão
pode virar-se sem aviso.
Ainda assim, sejam bem-vindos,
fiquem tristes à vontade.

(de Mar Largo, &etc, 2009)

15.9.13

GILBERTO MENDONÇA TELES


CAMUFLAGEM

Havia um sujeito puro,
capaz das coisas mais ternas.
Veio o mundo com seus m'urros,
com seus disfarces de fera

(casco de ouro reluzindo
na arquitetura da noite)
e transformou tudo em cinza
na gestação de seus coices.

Cavalgou pelo silêncio
seus cavalos cor de barro
e foi largando no chão
o -ão do não de seus passos.

Depois, com dentes e unhas,
mostrou-se inteiro, no avesso:
era outro i'mundo, mas c'ego,
não tinha garras aduncas,

não tinha amarras nos murros,
não era fúria nem f'era,
nem viu o sujeito puro,
capaz das coisas mais ternas.


(de A Raiz da Fala, 1972)

10.9.13

LUÍS FILIPE PARRADO


Olhas as palavras
mas não vês nenhuma luz.

Olhas as árvores
e vês troncos, ramos, a variada folhagem.

As raízes tens de as imaginar.
Ou escavar a terra.

Agora olha, de novo, as palavras.
Agora, como olhas as árvores.

E tens de imaginar agora.
E escavar, agora, a terra.


(de Entre a Carne e o Osso, Língua Morta, 2012)

7.9.13

JOSÉ RICARDO NUNES


ALMEIDA, Francisco António de
(c. 1702-1755)



A água que sobe a Lisboa
e reflui, destruidora, no primeiro de Novembro
de cinquenta e cinco, só me poupa um retrato
cuja legenda comprova ter sido
"bravo compositor de Concertos e de Música de Igreja"
e "um assombro no canto, com inatingível gosto".
Uma surpresa, o teu júbilo com a reedição
exclusiva para o mercado português
de 'La Giuditta', adquirida num centro comercial
por preço acessível depois de muito imaginares
que música eu seria. No booklet enaltecem
a "precisão da escrita" o "domínio
da orquestra", o "tratamento concertante
das vozes", "a inesgotável
inspiração melódica". Tudo mereceu
o resgate de Jacobs, quase
tudo, pois aqui e ali não me interpreta
devidamente. Parece-te poema?
Tinha vinte e quatro anos. Sentia-me na obrigação
de agradecer ao Marquês de Fontes o apoio
da sua Embaixada durante a estadia
em Roma, onde pude aprender,
aperfeiçoar o estilo e pôr-me a par
das novidades. Suposto imaginar
o regresso a Lisboa, a condescendência
do ouro, a Sé, a Capela Real, os Infantes, a súbita
subida na escala das águas?


(de Compositores do Período Barroco, Deriva Editores, 2013)