1.2.15

PAULO JORGE FIDALGO


TEORIA DA RELATIVIDADE

Ah como choram os poetas portugueses d'agora,
como gritam os jovens plumitivos desta época,
corações em sangria e vinho d'alhos,
versos sinistros e chocalhos nos pés.
Oh malvadez, guarda de culpa tanta arte.
Oh musa, não queiras que se acabe o raro uso
de sacrificar em verso coxo o hálito dos deuses.
Cesse tudo aquilo que as porras antigas nos legaram
e deixemos aos séculos meia dúzia de peúgas.
Oh fadas, três remendos valem bem um açafate.

Quanta beleza nestes jovens dados às letras
e à difícil harmonia dos fonemas,
poetas tempestivos e sem hora,
cultores da nova tecnologia do ripanço,
brilhantina gorda na caneta e sebo nas gravatas
ajudam o tal gamanço feito a quatro patas.


(de Síntese Poética da Conjuntura, Hiena Editora, 1993)

31.1.15

JOÃO ALMEIDA


GLÓRIA E ETERNIDADE

Poesia aqui só na ponta do verso eu sei
tudo tão frio à mesa, em trânsito
e que apanho do chão reproduções electrónicas
e pedacinhos de literatura inclusa também sei

apago a manhã no primeiro cigarro, enquanto dormes
arrumo a verdade da noite em lixo separado
dez pontas de cigarro, um filtro amarrotado
o calor da língua
esquecimento cada vez mais

ouço os labores do dia
as extremidades do trabalho no cimo do monte

aqui vou por lado nenhum
mesmo que diga fico aqui
nada se aquieta ou se desprende. Sento-me
à roda imparável do almoço

o barulho da televisão
e a luz que irradia também são mesa e cadeira

uma revelação de fogo circunscrito.


(de A Formiga Argentina, Edições Averno, 2005)

26.1.15

WENCESLAU DE MORAES


Eu tenho aqui um gato, um companheiro, um amigo, um grande amigo. Num livreco meu, relativamente recente ('O Bon-Odori em Tukushima'), que corre mundo... pelas tendas, fiz o elogio da gata, não do gato, como companheiro do homem solitário. Convém dizer que não mudei de aviso; mas a minha gata morreu, deixando-me um filhito, que me vi naturalmente obrigado a proteger, conservando-o no meu lar.
Ora, em cada Verão, o meu gato impõe-me a árdua tarefa de catar-lhe as pulgas que o mofino vai apanhar, aos cardumes, não sei onde, nos seus passeios vagabundos, atrás de gatas vadias, por estes quintais fora... O bicho, mercê do hábito, sujeita-se pacientemente, de ordinário, à operação; posto que por vezes se irrite, quando me dou ao trabalho melindroso de sacar do pêlo a pulga morta, ou quase morta; pois vou juntando todas, contando-as após, o que me dá útil informe, em referências ao acréscimo, ou decréscimo, nas tendências invasoras do desagradável parasita. Se o gato então se enfada muito, eu brado-lhe em voz bem alta, meio-agastado, meio-irónico: - «É para a estatística!» - E desato logo a rir, lembrando-me que muitos chefes de secretaria do meu burocrático Portugal, cavalheiros graves, engravatados, com óculos fixos nos narizes, irão importunando os seus amanuenses com a confecção de enfadonhas listas de bagatelas, de insignificâncias, e bradando-lhes também, como eu brado ao meu gato: - «É para a estatística!» - Pobre gato e pobres amanuenses!...


(in Wenceslau de Moraes, selecção de textos e introdução de Armando Martins Janeira, Portugália Editora, 1971 / original de Ó-Yoné e Ko-Haru, 1923)

24.1.15

M. S. LOURENÇO


VI
I
Sem trocar a nuvem por Juno,
Do Gades ao Ganges poucos distinguem um ovo dum espeto.
O espírito conduz a vontade e o medo?
Não lamentamos entrar com o pé direito?
A ruína vem do que pedimos aos deuses.
Afogamo-nos no dilúvio da propaganda,
Chocamos com a elevação do músculo militar.
Poupar arruina. Nero cercou Longinus e Séneca;
Uma coorte assaltou o palácio de Laterano;
Raro os soldados entram num cenáculo.
Com duas moedas de prata, à noite, receias o ladrão,
Tremes com a sombra da folha ao luar.
O pobre ri-lhe na cara.

II
Nos templos pede-se acções maiores no Fórum,
Que o juro cresça depressa.
Não bebes aconite numa taça de barro,
Odeia-la quando tens porcelana,
Quando as bolhas ardem no ouro.
Não louvarias, pois, os dois sábios,
O que ria e o que chorava ao sair de casa?
Pode-se condenar a rir mas tanta água surpreende.
Demócrito sacudia os pulmões com riso,
Mas nunca viu os fasces, os tribunais, togas de púrpura.
Se visse o Pretor no seu carro,
No pó do circo, túnica de palma,
Toga de ouro aos ombros, com uma coroa insuportável!
Debaixo dela sua um escravo,
Para contento do Cônsul senhor e escravo no mesmo carro.
Há ainda a águia, no ceptro de marfim,
Aqui os corneteiros, ali os clientes, numa toga de neve,
Amigos comprados no jantar da véspera.
O filósofo riu-se da multidão,
Até das suas lágrimas,
Quanto a si fazia um manguito à fortuna.

III
Untamos as coxas dos deuses com cera
E em troca recebemos palha.
O poder e a cobiça destroem.
As honras afogam: as estátuas são apeadas.
Sejano, querido do povo, arde na fogueira.
Com a sua face modela-se uma caçarola.
Louro sobre as portas!
Um touro para o Capitólio!
Alegres, todos arrastam Sejano.
«Que lábios que ele tinha! Que figura!»
«Podes crer que nunca gostei dele»
«Condenado porquê? Sem culpa formada?»
«Nada disso, uma carta palavrosa de Capri»
«Já estou a ver».

IV
O povo segue a fortuna, odeia os condenados.
Os mesmos chamar-lhe-iam Augusto,
Se Nortia lhe tivesse sorrido.
Como não podemos votar
O horizonte é mariscos e cama.


(de Arte Combinatória, Moraes Editores, 1971)

23.1.15

ALBERTO PIMENTA


uma arte de «crueldade»

Efectivamente, nos últimos decénios, a evolução e o aperfeiçoamento da «metafísica tecnológica» e o consequente descrédito da ideologia, o seu carácter profundamente 'kitsch', derivado da sua falta de autenticidade, também do abismo entre realidade humana e teoria humana (e humanitária), a interferência crescente da informação (totalitária) na liberdade de conhecer, não deixaram à razão estética outra solução além da recusa cada vez mais obstinada e intransigente de aceitar os seus sistemas simbólicos, com a consequente luta aberta de princípios: uma luta perdida a priori, é certo, mas ainda não terminada e que não pode senão encarniçar-se de ambas as partes, recrudescendo apenas de crueldade e violência. Uma crueldade, da parte da poesia, como a entende Sanguineti:
«A crueldade indica, nesta situação, o grau de cinismo violento com que a palavra é capaz de propor uma nova dimensão classificatória, no acto de experimentar e criticar, dentro do horizonte da literatura, o nexo real das próprias coisas.»
Adorno usa uma terminologia semelhante:
«Quanto mais pura a forma, maior é a autonomia das obras e maior a sua crueldade.»
A crueldade reside ainda, e talvez sobretudo, no recusar-se a servir de objecto de prazer, de conciliação com a realidade. E assim que este tipo de arte esteticamente emancipada (acima de tudo esta chamada 'poesia moderna') não funciona como representação «clara e pouco usual» da realidade, nem como hipóstase de um mundo imaginado ou como ersatz para a frustração existencial, nem como mito: funciona como recusa de colaborar com a totalidade na sua lenta e constante destruição do indivíduo e da sua livre e autónoma consciência. Para esse maravilhoso, infelizmente mal conhecido Oswald Wiener, «cada frase é um ponto arquimédico para reduzir este mundo a escombros». E só assim pode ser. E Nanni Balestrini declara:
«Uma poesia portanto como oposição. Oposição ao dogma e ao conformismo que ameaça o nosso caminho, que solidifica as pegadas atrás de nós, que nos ata os pés, tentando imobilizar-nos os passos. Hoje mais que nunca é esta a razão de escrever poesia.»


(in O Silêncio dos Poetas, Livros Cotovia, 2003 / 1.ª edição: 1978)

5.1.15

NIETZSCHE


O lado mais claramente compreensível da linguagem não é a palavra em si, mas a sonoridade, a intensidade, a modulação, o ritmo com que as palavras encadeadas são pronunciadas - em resumo, a música por detrás das palavras, a paixão por detrás desta música, a pessoa por detrás dessa paixão: tudo aquilo, portanto, que não pode ser escrito. Por isso, a escrita nunca nos levará muito longe.


(traduzido e citado por João Barrento, in Geografia Imaterial - três ensaios sobre a poesia, Documenta, 2014)

2.1.15

FERNANDO ECHEVARRÍA


A LUZ NOS GUIE DO TEU ROSTO. APENAS
ela nos seja, mesmo à noite, dia.
E a abundância de dias enriqueça
esta velhice desprendida,
de forma a os frutos lúcidos da terra
dispensarem maior sabedoria.
E reunirem. Serem porta aberta
que a chegada dos outros endominga.
Como o domingo se endominga à mesa
com os frutos polícromos do dia.
E sobre todos esses frutos se erga
o teu rosto de luz, mesmo que o enigma
da sua claridade ainda só seja
a que há-de vir. E já desponta. E vinga
como o esplendor, depois da noite hesterna,
que recupera terra mais antiga.



(de Lugar de Estudo, Afrontamento, 2009)

1.1.15

JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


EPICÉDICA

Liso é o choro do passado
Concreta a voz que esconde o dia de hoje
(O travo seu agora foge
Escuso na sombra do grito adiado).

Perdeu-se o gesto da tragédia
Liso é o choro do passado...



(de Odes Pedestres, editora Ulisseia, 1965)

20.11.14

HUGO WILLIAMS


OS CÃES DA MEMÓRIA

Quando visto o casaco eles não me largam.
Querem que os leve a dar uma volta,
que lhes atire um pau para que o tragam de volta.
Os olhos deles seguem-me pelo quarto.
Quando pego num livro
baixam a cabeça envergonhados.

Levei-os aos subúrbios
e abri a porta do carro.
Quando cheguei a casa
estavam à minha espera à entrada.
Como é que me convenci
de que ia viver sem eles?


(in Última Semana, selecção e tradução de Pedro Mexia, edições Tinta-da-China, 2014)

19.11.14

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


EXERCÍCIOS DE CALIGRAFIA

1.
Mate em dois lances: olho fixamente,
ameaço um desenlace escondido e
nunca encontro a solução. Quando me sinto
mais aflito, cuido que não tem.


2.
Manhã de Novembro e o desatino do sol
que nem corista em dia de estreia, eu decido
ir cortar o cabelo - da última vez disseste-me
que me ficava bem. Preciso de tão pouco para me sentir
histérico, guardar as mãos nos bolsos
e alcançar um sorriso de Madonna com bambino:
pobre de quem sobe as escadas
e tropeça na tua amabilidade como um golpe
de vento nas costas, fica rígido, deseja
que a fantasia não o assalte, que a ser verdade
não se magoe e, de qualquer forma, tenha o cabelo cortado.

3.
Que imprudência! - essas fotografias onde todos
se compõem como se fizessem parte do desenho
do mundo e com traço sigiloso te contemplam,
edificando o futuro num silogismo
sem termo médio, crendo que o tempo é uma
sucessão de surpresas, programado como máquina
de lavar louça, entre duas frases
amarfanhadas, a caminho do caixote do lixo,
e o papel reservado nesse mesmo quadro.

4.
Tanta roupa lavada - e nem um par
de calças em que me sinta à vontade.
Agora tenho de beber para conseguir
dormir e Charlie Haden esforça-se nas curvas
do baixo, turtuosas e a perder de vista,
como se uma única recta
passasse por um único ponto do plano.
Saberás como é difícil conservar a própria
estima e como desprezávamos contratempos
- sentados no chão, com o tabuleiro
de permeio, não entendi
as regras. Tenho vivido
de noite, lutado com subterfúgios,
que me seria penoso que ouvisses
enumerar - a música encrespa a ilusão
de outro mundo, de um tempo reversível.


(de Peças Desirmanadas e Outra Mobília, 2000)

26.10.14



AMADEU BAPTISTA


ISAÍAS

Quem quer que sejas, persevera.
Ainda que o templo seja destruído
e sejam pavorosas as notícias,
permanece na luta, da fé ou do instinto.
Que os teus dedos marquem
a página em que estiveres para que perdures,
para que te defendas dos ferros da ameaça,
do desterro,
do açoite feroz,
da escravatura.
Ah, persevera.
Em ti, no que vês e não vês
à tua volta, no labirinto interior
em que te perdes, nas areias escaldantes
do deserto, no arco assírio que te malbarata,
em todo o mal que vês ratificado
pelos que te governam,
nos actos levianos da ganância,
nas ímpias acções que vês nos pios,
hás-de encontrar a luz,
a luz que te desola mas te ergue.
Ah, persevera.
Porque não mais haverá
violência sobre a terra e haverá vinho.
Porque se há-de alargar o lugar
da tua tenda e há-de segurar-se a tua estaca,
e a paz dos teus oficiais há-de fazer-se,
e dos teus magistrados a justiça,
e o desamparo esquecerás para sempre.



(de Sistina, Edita-Me editora, 2014)

25.10.14

ALBANO MARTINS


Raul de Carvalho, o poeta português de que hoje aqui nos ocupamos, viveu, pode dizer-se, em risco permanente. Risco físico: uma aparente robustez disfarçava a doença - as doenças, várias, cedo manifestadas - que progressiva e inexoravelmente lhe corroeu o corpo e a que acabou por sucumbir, em 3 de Setembro de 1984, num hospital do Porto. Risco existencial: «filho de sapateiro bêbado», como de si um dia deixou escrito, do pai herdou a propensão, que nele era evidente, para «tudo discutir», o temperamento arrebatado e o «orgulho» que o manteve em rigoroso e diário conflito consigo e com os outros.
Do poeta diremos que ele é o retrato do homem, e nesta afirmação a melhor e mais justa homenagem que podemos prestar-lhe.


(excerto de «Raul de Carvalho e a Poesia da Autenticidade», in As Letras e as Tintas, edições Quasi, 2006)


PAULO DA COSTA DOMINGOS


Vivi, pois, durante uma época, ainda que muito brevemente, numa casa cujas janelas me inclinavam para as traseiras de um poeta: Raul de Carvalho. Cantava; ouvia-se-lo cantarolar sobre quintais e saguões, à luz de ouro no Outono lisboeta. E ia pondo a sua roupa lavada no estendal, na alegria doce de quem vive, não sozinho: na companhia de versos em louvor dos nadas do dia-a-dia. E o seu vidro saía cortado à medida da sua casa. Algo de que nunca eu me cansei, repetindo, repetindo iguais gestos, decerto, na minha própria construção. Ler, não chega; há que ver e ouvir pela abertura do coração, comovidamente. 


(excerto de Narrativa, Frenesi, 2009)

16.10.14




FERNANDO ECHEVARRÍA


AUTO-RETRATO DE REMBRANDT

1
A TELA OCULTA O OUTRO DE SI MESMO.
Que vai surdindo dela, da perdição de análise
que está no espelho lendo
a figura perdida, já só quase
ver o fora por dentro,
enquanto ver perdura em sua idade.
Cada minúcia incita no momento
a luz do objecto visto. E a do transe
duma veia infalível a que o peso
instrumental se iluminasse.
E, do fundo do outro de si mesmo,
o ver se vê. Com o só dentro de exterioridade.

2
E A DISCRIÇÃO DE VER DOMINOU TANTO
que a implacável doçura da velhice
se esqueceu de ir chegando,
com o uso da roupa, a essa luz humilde
de crânio coroado
de indiferença à encenação sensível.
E essa indiferença cumpre-se no trato
do porte diligente que a atenção atinge
e deixa iluminar-se até no pano,
gasto no uso que exige
a paciência esquecida no trabalho.
E que o estudo a claridade erige.

3
QUE A DISCRIÇÃO TAMBÉM É LUZ. DESPRENDE-SE
tanto da roupa como da paciência
com que se espera que o olhar se entregue
ao ajuste objectivo que a tristeza
instaura à volta de cada coisa. A ergue
à só indiferença de si mesma.
Não é luz que jubile. Apenas serve.
Cumpre a penumbra duma árdua empresa
em que tufos minúsculos somente
difundem uso de quase só emergência.
De aí as formas surdem. Quase nem se
desembacia o lume da surpresa.

4
OU É A SURDA SURPRESA DO VAGAR
que pelo escuro dos castanhos sobe
até um cinzento por que não se dá
nem na camisa, nem no rubro pobre
do manto casual.
Que na paleta quase que se escondem,
como se funde na mudez das mãos
a inteligência agora quieta. Porque
espera que ver as mova instrumentais
e só então acordem
a esse sono sobrenatural
que volve humilde o poderio ao homem.

5
O SILÊNCIO COMEÇA DESDE BAIXO.
É de onde aponta a escuridão das linhas
que vão gerar essa estrutura de ângulos
difícil, mas de fundação precisa.
O pincel o sigilo vai ao canto
mais fosco alimentar. E traz acima
o nascimento vertical do traço
que o silêncio da tela em sua orla afinca
e, a custo, faz recrudescer o alto
vagar de ver. A independência pia
com que, do outro de si mesmo, tanto
a distância de ver se determina.

6
E, AÍ, A LUZ, DIR-SE-IA QUE DE DENTRO
da operação de estar a ver nos vem.
E quanta baste para nós lhe vermos
a claridade exterior. E o trem
de sono que a brancura deixa ao centro
da indiferença com que já se vê.
Mas que prolonga o horizontal acerto
da tela que na tela é tenso. E é
rectângulo que diz o descoberto,
enquanto o inferior é só refém
duma paleta que lhe adumbra o peso
e nutre o luto arcaico do pincel.

7
E UM OUTRO, DE VERTICAL DIFUSO
e de uma escuridão lenta de ofício,
de onde se arranca um quase eco de rubro
a um castanho profundo a abrir a vinho.
Mas de onde se adivinha sobretudo
que a vibração do escuro nos vai vindo,
até a cabeça destacar o vulto,
só iluminado quanto for preciso
para que em ver desembacie o estudo
a independência. Esse lugar vazio
que os outros de si mesmos vê no mundo
onde de si se vêem desprendidos.



(de Uso de Penumbra, 1995)

11.10.14

RUTH FAINLIGHT


ESSA PRESENÇA

Como um pintor afastando-se do cavalete,
erguendo-se da mesa de trabalho
com o pincel cheio de tinta, para ver melhor
onde é preciso outro toque de vermelho, como
um tapeceiro ponderando se chegou
a altura de mudar o padrão, um escultor
hesitando antes do primeiro e decisivo corte,
medito um poema, repetindo palavra por palavra,
tentando entender onde é preciso alterar uma nota,
testando a respiração, o sentido e a sorte,

como quem fita a superfície de um espelho
através dos insondáveis níveis entre vidro e prata
até às pupilas dessa presença reflectida
que por cima do meu ombro emerge das suas profundezas.


(in Visitação, tradução colectiva em Mateus, Quetzal editores, 1995)

10.10.14

SOUSA DIAS


[...] Como todas as artes, a poesia é experiência sensível, mas essa experiência não é a tradução estética da experiência vivida, não é a estetização do vivido. Não é a vida do criador que explica a obra de arte, quando muito é a obra que explica a vida, o modo de vida do autor. Impotência da psicologia em arte, ou a arte como uma antipsicologia objectiva, «poder do falso» (Nietzsche). Sem dúvida, cada poeta fala das suas experiências. Mas trata-se de experiências que são já uma evasão do vivido, a auto-ultrapassagem do vivido na sensação, em fulgurações visionárias de uma subjectividade alucinada, arrancada a si, posta na linguagem fora de si. Todos os poetas convergem neste ponto. «Os versos não são sentimentos, são experiências», escrevia Rilke (ou o seu heterónimo Malte Laurids Brigge), experiências literárias cuja matéria-prima não são pois vivências, nem mesmo a memória das vivências, mas antes, em termos rilkeanos, a sua marca «já sem nome» no poeta, o seu rasto anónimo no esquecimento de tudo: por exemplo a Infância pura tal como nunca foi vivida nem dada na recordação, o puro Amor como a invivível essência afectiva dos amores vividos. Mallarmé por sua vez falava da poesia como uma experiência sem eu, subtractiva do eu, como uma experiência de «destruição» do eu como ele dizia, mesmo se a experiência mallarmeana, ao encontrar no lugar do eu abolido apenas a linguagem e nada mais além dela, tendia a abolir com ele também a sensação, toda a sensibilidade, o 'pathos' poético. Paul Celan repetirá que «a arte põe o eu à distância», mas já antes Trakl aspirara a uma poesia «impessoal e saturada de visões», Pessoa autopsicografara o «fingimento» poético, a irredutibilidade da emoção poética à emoção psicológica, e Ruy Belo dirá que o poeta «imolou o coração à palavra». Eugénio de Andrade confirma: «a poesia é uma arte impessoal». Como o é toda a arte. 


(excerto de «Poesia, Arte Bilingue», in O Que é Poesia?, nova edição aumentada: Documenta, 2014)