5.1.09

[em face dos últimos acontecimentos]


ARNALDO SARAIVA

(excerto de) O ANÚNCIO


(…) O anúncio, que aparece geralmente sobre um suporte efémero, fala de produtos que o progresso pode desactualizar de um dia para o outro; além de que o capitalista, que é quem (mais) pode anunciar, se mostra com razão impaciente, porque o tempo joga contra ele (demasiado lentamente, é certo). Todo o anúncio parece dizer, se o não diz expressamente, ao seu leitor: «compre já»; «venha logo»; «não perca tempo».
Se trabalha sobre a actualidade, talvez seja incorrecto dizer simplesmente que a publicidade nos países capitalistas é uma arma da classe dominante, ou que só tem efeitos negativos, ou que só serve a ideologia burguesa. Porque ela é antes a ideologia de um presente ambíguo, a ideologia da ambiguidade. O anúncio tem provocado o progresso da leitura, da linguagem, da arte; o anúncio pode ser veículo de sugestões anti-burguesas; pode avançar, nem que seja pelo humor, hipóteses e soluções de progresso social. Surpreender-nos-á decerto a descoberta, nos interstícios do nosso texto, de uma problemática tão séria quanto esta:

— Os insectos assinaram «tréguas definitivas» ante o perigo comum do extermínio total; será que os dirigentes israelo-árabes (ou os homens em geral) preferem esta última solução?
— Os principais chefes de alguns países que se guerreiam não passam de …«Primeiros Insectos».
— Os «Primeiros Insectos» mosqueiros, quer dizer, os chefes de pequenos países assinam um tratado de paz e de defesa colectiva; mas de que lhes serve isso se uma super-potência vai exterminá-los?

Decerto que o nosso texto se coloca do lado da «super-potência» (insecticida), pois até a publicita; mas não se segue daí que o seu autor estaria disposto a propagandear uma super-potência — a sério — do mundo dos homens. Aliás, se esse autor se coloca do lado do poder, não há dúvida também de que pretende (talvez por manha, mas pouco importa) que toda a gente tenha o poder (o insecticida). E se os homens se parecem com os insectos, a inversa também é verdadeira: os insectos (- homens) são capazes de exterminar os homens (- insectos).
O curioso é que por vezes o leitor da publicidade também se parece com os insectos do nosso texto: é ameaçado se não se defende, e ameaçado se se defende. Perde se compra, e perde se não compra.
Mas assim é a vida, que exige atenção constante, e em que nenhuma atenção é suficiente para a preservar. Porque a vida, como a comunicação, como a publicidade, como os políticos do nosso texto, também tem um corpo híbrido: de insecto e de homem; de guerra e de paz.
Da guerra da necessidade e da sobrevivência; da paz (ou da alegria) do poético e do lúdico.

(1976)

(in Literatura Marginal izada – novos ensaios, edições Árvore, 1980)

[a imagem acima (clicar para ver melhor), conforme indicação do Autor do texto, foi recolhida do Expresso de 16 de Fevereiro de 1976]

1 comentário:

Suzanna disse...

... e o que mudou mesmo ao longo dos últimos 33 anos?