20.2.12


VASCO GATO


SCALINATELLA

7.

Tinha do mundo a imagem de
um vermelho espesso, grumoso.
Não descobria nele razões
para dissociar o crime
do prazer.
Tudo era apenas
algo que apetecia trincar
para lhe extrair todo o sumo,
todo o benefício.
Desde os quinze anos que
se decidira, todas as manhãs,
a esmagar morangos com os olhos.


(de Napule, Tea for One, 2011 – colecção matéria mínima)

19.2.12


MARIANNE MOORE


A EMBALSAMADA POLÍTICA

Nada há a dizer a teu favor. Guarda
o teu segredo. Oculta-o sob a tua plumagem
          áspera, necromante.
                    Ó
ave, cujas tendas foram "toldos de fio
egípcio", a vaga inscrição em ziguezague da Justiça
          – inclinando-se como uma bailarina –
                    há-de mostrar
a força da sua soberania outrora viva?
Dizes que não, e transmigrando do
          sarcófago, tu és como o vento,
                    a neve,
o silêncio à nossa volta, com a voz de um moribundo,
semi-titubeante e semi-senhoril, tu espias
          em redor. Íbis, em ti qualquer virtude
                    não
existe – tu, que estás viva, mas tão silenciosa.
O comportamento discreto não é agora a síntese
          do bom senso do estadista.
                    Mesmo
que fosse a encarnação da graça morta?
Como se uma máscara da morte pudesse alguma vez substituir
          a excelência imperfeita da vida!
                    Lenta
até para reparar no íngreme e rígido equilíbrio
do teu trono, hás-de ver a forte distorção
          dos sonhos suicidas
                    passar
cambaleante em sua direcção e com o bico
atacar a sua própria identidade, até
          o inimigo parecer amigo e o amigo parecer
                    inimigo.


(in Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Campo das Letras, 1999 – colecção Aprendiz de Feiticeiro)

18.2.12


ADOLFO CASAIS MONTEIRO


TRÊS POEMAS DE LONDRES

I

Talvez, estrangeiro em qualquer parte,
fosse a minha pátria ser livre
no diverso perder-me em todo o mundo...

Talvez esta imagem me persiga
até ao fim, de ser nada em toda a parte,
para ser cada novo instante um estrangeiro
que não entende sequer a língua de si mesmo.
Talvez na vida valha só perdermos
a ganhar outro ser em cada coisa
– e saber algum dia ser ninguém, pousando
sobre a quimera das horas o sorriso
de quem tanto perdeu que nada é mais...

II

Quantas vezes a vida principia?
Tudo é começar, quando se ama!
Amor de quê? Da névoa e do silêncio
subindo entre o passado e o presente?
Ou do claro esvoaçar de um riso
que entre as pálpebras da noite se adivinha?

III

                                  Ao Sérgio Viotti

Dorme na paz provisória
de ser como não haver morte.

Não queimes a inocência
de que o dia te vestiu.

Sonha, acordado, sem luto
por tudo ter sempre um fim.

Deixa, queimado no porto,
o navio do regresso

– contigo vai só o vento
que não tem âncora, nem lei.


(de Noite Aberta aos Quatro Ventos, 1943/1959)

'Caderno de Milfontes' já disponível


Tenho o gosto de informar que o meu novo livro de poemas, Caderno de Milfontes, já pode adquirido.
Sendo uma edição restrita (apenas 150 exemplares), a editora Volta d'Mar (sediada na Nazaré e da responsabilidade do Luís Paulo Meireles e do Mário Galego) optou por fazer as vendas apenas através de contacto directo (ver abaixo).
Através do link podem ficar a conhecer também os outros livros já editados ou a editar por eles.



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apartado 93
2450 nazaré

17.2.12

GIÁNNIS RITSOS


A POSTERIORI

Ao ponto a que as coisas chegaram, ninguém – dizemos – tem culpa. Um partiu;
o outro foi morto; os outros – como contá-los agora?
As estações mudam-se regularmente. Os loendros florescem.
A sombra move-se à volta da árvore. A bilha imóvel
ficou à torreira do sol, secou; a água foi-se. Contudo,
podíamos – diz ele – deslocar a bilha, para aqui, para ali,
conforme a hora, e a sombra, à volta da árvore,
girando até encontrarmos o ritmo, dançando, esquecendo
a bilha, a água, a sede – já sem sede, dançando.

20.V.68


(in Antologia, Selecção, Tradução e Prefácio de Custodio Magueijo, Fora do Texto, 1993)

8.2.12


RUI COSTA


BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem, há uma semana, há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.


A MATÉRIA DO AR

Bom dia. Também eu sou feito de marfim.
Estes são os meus amigos d'hoje: folhedo
para entreter as mãos, pontas de madeira
grossa para depois comer. Hoje havia água
e a minha boca é cheia.
Nunca o mínimo deus me salvou.

Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada,
visito as mulheres que lavam e que cantam.
Trabalho com elas e há um forno transparente
onde cozer o pão. Depois elas perguntam sempre
quem sou e eu respondo: sou alguém que come pão
e que se senta fora da casa com as mãos na terra.
E elas começam a cantar e nunca me falam de
amor.

Ainda tenho pensamentos mas já não os penso.
Falo como o sono nutre a sua teia e o seu
veneno. Só os bichos da terra e os que andam
no céu são brancos. E digo:
Acende uma fogueira ao que sobrar do
mundo.


(de A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, edições Quasi, 2005 – biblioteca Uma Existência de Papel)


DESPERADO

O índio não percebe o cowboy e o cowboy não percebe a mãe. A mãe do cowboy é católica, fala para dentro, tem dentes de cereja que as visitas engolem com os olhos, como crianças tolas com as mãos todas que merecem. A mãe é católica mas nunca se queixa porque gosta de índios e cowboys, propendendo igualmente a um pequenino gozo com a incomodidade que o progresso recicla. Não lava as mãos, coça a barriga, pensa noutra coisa quando lhe destróis o dia. A mãe do índio grita mais ainda e eis que a lua começa. Do lado do sol, a mãe do cowboy enche-se de esgrimas e reza com grinaldas nas orelhas entre veredas finas. O amor da mãe pelo filho é uma luta entre o sol e a lua, com estepes ao fundo onde esquecemos tudo o que passamos a vida a perder.


(de O pequeno-almoço de Carla Bruni, Ayuntamiento de Punta Umbría / Livrododia, 2008 – colección Palabra Ibérica)


ACIDENTE I
[HELDERIANA VIRULENTA]

eu às vezes apetece-me que vocês sejam felizes hoje,
roubando aos bocados. Com gotas de sono a morder alto,
rebentando nas asas.
Às vezes procuro chamar a atenção, isto é, por vezes decido morrer
para sempre. Sem anzóis a cair dos braços movendo o ritmo do ar.
E sem pena, horizontal a tudo. Então costumo ver os amigos encostados
uns aos outros, lavando árvores. Ou entrando pelo sangue, com as mãos
todas a dar olhos.
lembro-me de vocês quando decido morrer para sempre.
E quando sou eterno, comendo folhas sentado.
Sei que há paredes brancas onde as éguas não entram. Ficamos
às vezes à conversa nos rios infinitos, chorando lentamente
uma felicidade louca. E somos loucos perguntando, chovendo
no coração louco. E nada existe que não seja apavorado e
tremendo.

Mas tu sabes. Eu quero que tu oiças. As nuvens são inteligentes
e é por elas que as nossas mãos recebem. Por tudo quanto não existe,
pondo pedras demoradas junto ao lugar do amor. Tantos mortos,
dizes,
órgãos repartidos por tanta nenhuma coisa. Nada. Tanto.
Eu sou louco e compreendo. Eu tenho o meu orgulho e a minha força.
Canso-me. Uso as minhas mãos. Deixo o coração ser alternado
e comestível. E o vento passa lá fora e eu passo cá dentro e lá fora.
E sigo o rumo das papoilas e digo que amo as coisas raras.
Neste extremo lugar dos homens,
                                                           coroado de tudo.


A MINHA BISAVÓ

A minha bisavó
é um quadro na parede.
Roída pela traça, ela
sucumbe à dentição do tempo
nos seus olhos escuros de
discreta bruxa.
Um dia a minha bisavó
nem quadro há-de ser.
Continuará, apesar disso, a beber
a água do copo onde lavou
as cerejas (fingindo-se distraída)
e a arrazoar antes da visita
extemporânea aos vizinhos:
«se gostarem da visita, ficamos
todos contentes, se não gostarem
é muito bem feita».

A minha bisavó hoje não responde
Mas há um par de meias novas na
minha memória, um prato de
cerejas.


MEDO

Furo-te os olhos com os dedos magoados
como-te
torpor de medo as luas verdes
mordem-me a boca
do teu peito sobe o halo nacarado
a essência fútil das flores mortas
e novamente o medo
de nunca mais voltar a ser perfeito


(de As Limitações do Amor são Infinitas, Sombra do Amor edições, 2009)

6.2.12


RUI ALMEIDA

[em memória da Bia]

AS GATAS

A que está prenha é branca
E estende a pata da frente,
Deitada na mesa
No lugar onde a frincha dos cortinados
Permite uma faixa de sol.

As duas pequenas brincam,
Descobrindo cada pormenor do mundo,
Brigam em cima do tapete colorido,
À vista da mãe que lhes dedica
A mais felina indiferença.

É um outro silêncio o abrigo
De cada uma;
Este é o seu tempo,
O que lhes sustenta a vida


(de Caderno de Milfontes, no prelo)




5.2.12


FERNANDO LANHAS


auto-retrato, 1973

JOSÉ VIALE MOUTINHO


HOMENAGEM AO PINTOR FERNANDO LANHAS
  
1

dele é o grande livro dos astros
as linhas da idade pertencem-lhe
assim como todos os museus da terra
e o crânio do homem de cromagnon

vejamos as horas que restam no saber
do tempo nestes relógios de sol vivo
como evoluiu o linho o trigo o milho
quanto vale um minuto isolado por aí

como se passa da cor à ausência dela
no espelho das cinzas nos tecidos
o fogo acabado de descobrir os olhos
postos numa boneca de louça antiga

esquece-se das chaves do automóvel
as casas suspensas nos estiradores
uma porta que não existe ainda oca
tudo tão relativo como a ampulheta


2

servem-nos os melhores vinhos o lápis
que traduz o chapéu de palha da madeira
essa estrada por entre os arvoredos
deus se existe vai no porta-bagagens

adiante no tablier ninguém escuta as
perdas e os danos o inquieto barro
que se permite no largo de s. joão novo
num palácio de nasoni entre muralhas

de que me lembro e aonde devo guardar
este barco dos anos trinta este folheto
de monstros de há trezentos anos a lua
naquele tempo não imaginava a sua morte

quantas vezes voltamos ao lugar onde
nem a sibila adivinharia as sombras
com os nossos números de ordem astros
de um universo perdido nas palavras


(desenho e poema in Retrato de Braços Cruzados, editorial Caminho, 1989)

23.1.12


JOSÉ BENTO


76
MANUEL HERMÍNIO, JANEIRO, 2001

Na manhã de luz a sujar-se nos vidros
e a prolongar ruas no interior de lojas
opacas e atraentes como pântanos,
que receamos ao acusar nosso reflexo,
vou caminhando como se fosse imóvel,
sem indagar para onde: adormento-me
a dissipar-me passo a passo no torpor
de uma ausência,
sem fulgor para uma fuga
ou assomo a um dia íngreme.

Súbito, fende-me um golpe
(onde?, de quê?, de quem?)
até à testa e à nuca,
ao grito, à palavra única, à orbita cavada
que rege o coração, oprime o sangue
para compor seu dito ao rubro
a crestar-nos os lábios,
não grito mas sufoco, urgência
de me acolher numa brecha que me aceite:

avisto-te num algures ferido, fracturado
pelo sopro que te corrói sem te queimar os olhos
donde a luz emerge até eu escutá-la,
como se os atravessasse a derradeira vez
para nos reconhecermos
no tempo sorvido num cálice comum,
— aprendizagem do precipício
mais sem fundo: ossos, vazio e negro, ossos.

Estou só, ninguém pode ouvir
o que digo, não digo:
nada me é dado fazer por ti,
as palavras que me restam são rasteiras,
mais quando as abandono escritas como estas
para que não me firam mais.

Onde outro cordeiro para o sacrifício?,
qual o astro cálido mais próximo?
Tem de haver um meio menos bárbaro
de te ser dito o que sabes por vivê-lo.

Por exemplo, esqueceres tua casa,
os rostos suspenso do teu rosto,
o teu lugar à mesa,
e vagueares disperso num marulho
de poros arquejantes, espinheiros de um mar
minado por sereias a engodar-te
num canto em que te demandarias
para o retorno a um relâmpago, à infância;

ou buscares o centro do lugar
de uma outra lenda tão límpida como essa:
nos morosos anos de uma tarde ou de um mês breve
afluíres a um horizonte de íman:
seres absorvido e tudo absorveres
até vestires a nudez de teu nome,
sem a pancada que em ti cravou a choupa,
a dissonância que esmaga, insidiosa.

Esta hora contrai-se até estilhaçar-se
num relâmpago obscuro:
ignoro se continuo aqui e onde irei
unificar as porções desirmanadas
de que fui, estou a ser feito;
ignorar queria
que um vórtice te consome, e prossigo
a decifrar o apelo que de longe me tolhe:

jogo a magia de tornar-me visível
na vertigem em que avanço:
                                                  estas letras

para ninguém mais tanger,
uns braços podendo só abrigar nada, uma montanha.


(de Sítios, Assírio & Alvim, 2011)

21.1.12


PHILIP LARKIN


Inverno

No campo dois cavalos,
Dois cisnes no rio,
E o vento fustiga
Um baldio onde os cardos
Se juntam como gente;
E de novo os meus pensamentos
São crianças
De rostos inquietos,
Acordam em túmulos
Ocultos e soerguem-se
Sob céus velozes.

O rasto diagonal
Dum cisne na água
É o frio do inverno;
E os cavalos, como paixões
Há muito derrotadas,
Descaem as cabeças
E ai, como me invadem
A mente amortalhada
E resgatam da memória
Os rostos aprisionados —
Aluviões do passado.

Então a charneca inteira
Silva em golpes de vento
E a gente transida
Junta-se como cardos
Num lugar estéril;
E mesmo assim os milagres
Exumam de cada rosto
Fortes sementes sedosas
Que lançam para o estático
Sol de ouro do inverno
Um orgulho sem fim nem sombra.


(in Uma Antologia, tradução de Maria Teresa Caeiro, Fora do Texto, 1989 – Poesia Nosso Tempo / original de The North Ship, 1945)

20.1.12


W. S. MERWIN


The Stranger

After a Guarani legend recorded by Ernesto Morales


One day in the forest there was somebody
who had never been there before
it was somebody like the monkeys but taller
and without a tail and without so much hair
standing up and walking on only two feet
and as he went he heard a voice calling Save me
as the stranger looked he could see a snake
a very big snake with a circle of fire
that was dancing all around it
and the snake was trying to get out
but every way it turned the fire was there
so the stranger bent the trunk of a young tree
and climbed out over the fire until he
could hold a branch down to the snake
and the snake wrapped himself around the branch
and the stranger pulled the snake up out of the fire
and as soon as the snake saw that he was free
he twined himself around the stranger
and started to crush the life out of him
but the stranger shouted No No
I am the one who has just saved your life
and you pay me back by trying to kill me
but the snake said I am keeping the law
it is the law that whoever does good
receives evil in return
and he drew his coils tight around the stranger
but the stranger kept on saying No No
I do not believe that is the law
so the snake said I will show you
I will show you three times and you will see
and he kept his coils tight around the stranger's neck
and all around his arms and body
but he let go of the stranger's legs
Now walk he said to the stranger Keep going
so they started out that way and they came
to a river and the river said to them
I do good to everyone and look what they
do to me I save them from dying of thirst
and all they do is stir up the mud
and fill my water with dead things
the snake said One
the stranger said Let us go on and they did
and they came to a caranda-i palm
there were wounds running with sap on its trunk
and the palm tree was moaning I do good
to everyone and look what they do to me
I give them my fruit and my shade and they cut me
and drink from my body until I die
the snake said Two
the stranger said Let us go on and they did
and came to a place where they heard whimpering
and saw a dog with his paw in a basket
and the dog said I did a good thing
and this is what came of it
I found a jaguar who had been hurt
and I took care of him and he got better
and as soon as he had his strength again
he sprang at me wanting to eat me up
I managed to get away but he tore my paw
I hid in a cave until he was gone
and here in this basket I have
a calabash full of milk for my wound
but now I have pushed it too far down to reach
will you help me he said to the snake
and the snake liked milk better than anything
so he slid off the stranger and into the basket
and when he was inside the dog snapped it shut
and swung it against a tree with all his might
again and again until the snake was dead
and after the snake was dead in there
the dog said to the stranger Friend
I have saved your life
and the stranger took the dog home with him
and treated him the way the stranger would treat a dog

1993


(recebido, em tempos, por email, sem referências à publicação original)

19.1.12


ANTÓNIO RAMOS ROSA


À Morte dum Poeta

Sem ternura
sem pureza
não grito a tua morte apenas violenta
a tua morte apenas violenta ecoa em mim
e já não existo senão escuro e tremo
um pobre corpo atemorizado um coração de vazio
e a vergonha de não ter lágrimas e a ignorância
Estou mais razo do que tu, poeta, a uma mesa de café
mais morto mais falso mais nojento do que tu
e disfarço o silêncio e naturalmente continuo na vida
e rio e fujo e não consigo enterrar-te
não consigo chorar-te
porque o horror violento me desenha o corpo
Tiraste-me a vida e quase te odeio poeta
a minha morte teria sido muito mais insignificante
a minha morte teria sido mais justa
É esta ideia que te não perdoo, esta ideia horrorosa que bebo
esta ideia de que não mereço a tua morte
porque não mereci a tua vida
O que eu odeio é não te ter amado
o que eu odeio é a minha pobre vida e a minha culpa
o que eu odeio é ter ficado
Deixaste-me a responsabilidade tremenda de sobreviver-te
e por isso te amo e por isso descansa, poeta!

11 de Fevereiro de 1952.


(in Árvore – folhas de poesia, Inverno de 1951-52 / número dedicado «à memória de Sebastião da Gama, ao Poeta e ao Amigo que perdemos»)

18.1.12


Talvez nada.

Tão mais incerta é a vida
Quanto a consciência que dela temos.

Levantarmo-nos é ir, a vaga
Sensação de ter ideias,

Sonhos, medo, um futuro.
Talvez o sem fundo de existir

Obrigue a deixar para os outros
O entretém de continuar a sentir

O vazio.

12.1.12


CESARE PAVESE


LENHA VERDE
(para o Massimo)

O homem imóvel tem à sua frente colinas na escuridão.
Enquanto estas colinas forem feitas de terra,
os camponeses terão de as cavar. Fita-as e não as vê,
como quem na cadeia fecha os olhos, completamente desperto.
O homem imóvel — esteve na cadeia — retoma amanhã
o trabalho com alguns camaradas. Esta noite está sozinho.

As colinas sabem-lhe a chuva: é o odor distante
que às vezes chegava à cadeia com o vento.
Às vezes chovia na cidade: o escancarar
do sangue e dos pulmões à liberdade da rua.
A cadeia absorvia a chuva, na cadeia a vida
não acabava, às vezes também filtrava o sol:
os camaradas esperavam e o futuro esperava.

Agora está sozinho. O odor insólito a terra
parece-lhe saído do seu próprio corpo, e recordações antigas
— ele conhece a terra — puxam-no para o solo,
para aquele solo verdadeiro. Não vale a pena pensar
que a enxada os camponeses enterram-na na terra
como num inimigo e que se odeiam de morte,
como tantos inimigos. Têm também uma alegria
os camponeses: aquele pedaço de terra amanhado.
Que importam os outros? Amanhã as colinas
estender-se-ão ao sol, cada um terá a sua.

Os camaradas não vivem nas colinas,
nasceram na cidade, onde em vez de erva
há carris. Às vezes também ele se esquece.
Mas o odor da terra que chega à cidade
já esqueceu os aldeões. É uma demorada carícia
que faz fechar os olhos e pensar nos camaradas
na cadeia, na longa cadeia que espera.


(de Trabalhar Cansa, tradução de Carlos Leite, livros Cotovia, 1997)

11.1.12


FERNANDO ECHEVARRÍA



VIVOS ESTÃO. E É DO FUNDO DE ESTAREM
que seu pulso nos vem vivente
estremunhar. Que naufragáramos quase
na compenetração. Estado sempre
imbuído de ausência. A saturar-se
do rasto duma ida tão doente
que o mundo cessa à volta. Ou é arrabalde
que de o ser até se esquece.
Mas, quando de onde estão nos vêm e trazem
pungência tão de pulso renitente
despertar se subleva. Sobe ao auge
de vê-los vir àquela terra estreme
onde a morte perdeu a sua base,
que só há vivos nessa luz vivente.


2

OS VIVOS QUE ALI VIVEM NOS CONVOCAM.
Em nós sublevam esse pulso vivo
que fica dando, com a evidência toda,
para o rasto sugado do seu ímpeto.
A haver fronteira, passa por uma zona
aonde as dimensões cruzam conflitos
e paralisam. Embora
perplexa errância acerte o exercício
e fixe o ponto de onde se abre a folga
que ajuste a dimensão ao novo sítio.
E esse sítio é o de aqui e agora.
Com o agora a exceder-se e vivo
a contundir à volta
do pulso peremptório. E fugidio.


3

MAS QUE SÓ FOGE QUANDO SE OBNUBILA
a atenta gravidade. Rompe então
uma estranheza de alba compassiva
que fica a pairar. E só
a lomba reconhece, tão antiga
que se lhe esvai a luz do pormenor.
Ou, talvez, essa luz entre em vigília,
sendo a vigília ritmo que se foi
esquecendo do ponto agudo em vista.
Agora, é sem ninguém a solidão.
Mesmo a paisagem desfalece. Fica
o eco trespassado de um fulgor
e decaindo para a cota implícita
que a explícita estranheza veio impor.


(de In Terra Viventum, edições Afrontamento, 2011)