13.2.04

[SONETOS À SEXTA-FEIRA]

ANTÓNIO BARBOSA BACELAR


Havia Felício dado fim a seu canto, e não a suas lágrimas, e querendo tomar para alívio delas hua hora de descanso (se acaso em um Triste para descanso há hora), se ia recostando sobre o áspero leito de um Penedo, a tempo que lhe feriu as orelhas uma doce voz, que tocando brandamente hua viola, dizia desta sorte:
Áspera serrania que elevada
ao mais sublime cume rutilante
te obedecem os Orbes fulminante,
não te viram os raios fulminada;

De ti mesma em ti mesma remontada,
parece que presumes, arrogante,
escalar as esferas de diamante,
atropelar a Máquina Estrelada.

Eterna vive, dando Leis aos ventos,
ao mar espanto, assombro da grandeza,
do tempo injúria, da firmeza Templo;

Eterna vive império aos Elementos,
pois és de Nise exemplo na dureza,
pois és de Lauro na firmeza exemplo.

(excerto de Desafio Venturoso - edição de Ana Hatherly)


FRANCISCO RODRIGUES LOBO

Se coubesse em meus versos e em meu canto
A tristeza sem fim que o peito encerra,
Moveria aos penedos desta serra
A nova piedade e novo espanto.

Se puderam meus olhos chorar tanto
Quanto se deve à causa que os desterra,
Cobriram já em lágrimas a terra,
Escurecendo o seu tão verde manto.

Mas o que tem amor dentro encerrado
Na alma, que à língua e olhos se defende,
Não pode ser com lágrimas contado:

Ah! quem sabe sentir quanto compreende
Que o mal que está oculto em meu cuidado
Não se vê, não se mostra, não se entende.

(edição de Luís Miguel Nava)


ANDRÉ FALCÃO DE RESENDE

A uma dama que lia por o livro de Francisco de Sá de Miranda.

Quem não louvará muito a toda a hora
O Sá Miranda, nunca assaz louvado,
D'engenho, estudo, estilo alto e apurado,
E sobre tudo tão ditoso agora

Que é do puro alabastro assim, Senhora,
De vossas delicadas mãos tocado,
Dessa voz doce ora pronunciado,
No seio d'alva neve posto outr'ora?

Pirâmides, sepulcros sumptuosos,
Edifícios que m fim o tempo gasta,
Tanto sem fim não fazem sua memória

Quanto a luz desses olhos tão formosos,
Que graça e vida dar a tudo basta,
E a mim dão vida e morte, pena e glória.

(fixação do texto de Isabel Almeida)


ABADE DE JAZENTE (Paulino Cabral de Vasconcelos)

Já que esta noite o sono se demora
A entrar na solidão deste aposento,
Vamos por esse mundo, ó pensamento,
Antes, que o dia traga a roxa Aurora.

Governamo-lo em seco: e dele fora
Como quem vê da praia o mar violento,
Demos a quem navega arbítrios cento,
Que pode ser, que algum lhe sirva agora.

Dizem por 'i; que tudo o Inglês abrasa
Em tantas Naus, como até'qui costuma;
Mas eu lhas fundirei dentro de Casa.

Vem-me qualquer Rapaz, que de uma em uma
Vá lançar no paiol uma só brasa;
Que eu farei que todas lhas consuma

(fixação do texto de Miguel Tamen)


ELPINO NONACRIENSE (António Dinis da Cruz e Silva)

Fuliginosos Ciclopes suavam
Um corisco batendo retorcido,
E os golpes do martelo endurecido
Pela côncava gruta ressoavam:

Do rubro ferro chispas mil saltavam,
Entre as quais os Ministros de Cupido
Noutra bigorna com menor ruído
Um virotão talhante trabalhavam.

Tanto que a cruel arma esteve pronta,
Amor, para prová-la, destramente
No peito me cravou a aguda ponta:

Da ferida o traidor ficou contente;
Pois desde que o terrível arco aponta,
Não tem ferro vibrado mais ardente.

(fixação do texto de Maria Luísa Malaquias Urbano)

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