11.10.13

MARIA ALZIRA SEIXO


NOITE INFLECTIDA

Desaparece assim teu encanto solar de redomas frágeis atraindo chispas vermelhas sobre as pedras nuas. Encantamentos frouxos que mutáveis te abrem os ares tão agrestes da manhã. Olha esse astro que então abandonaste por incauto revertimento a áridas páginas que te tomam na morte da imagem, e não lhe desapegues a incomensurável brandura de tecedura limpa, nitidez reflexiva da morte cruel dos outros. Vê o espanto. Repara no que frágil anoitece e rubro volta em cada grito de presença por sinal maligna. Que do teu entendimento a forte perda se enreda pelos tumultos da escrita lisa, esse sentido do teu embevecer. Perdoarás as manchas, porém nunca as mansas quietações redundantes dos alvores da descoberta. Porque o sabes te esvais e renasces em cada hora do mais puro infinito discorrer dos mundos.

para o António Ramos Rosa

(de Flores de Lava, in letra da terra, o oiro do dia, 1983)

10.10.13

JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA


OS OBJECTOS NO LUGAR

Há por sorte um espelho que parece
mentir, sem questionar, em cada novo dia.
O teu problema não é apenas acordar, são as dores
nas costas e a devolução da ameaça
de uma barba mal escanhoada. Foi outra noite

nem muito ingrata. Os objectos estavam
no lugar, a sombra do teu passado
nem muito perseguida pelos maus hábitos
e a nostalgia das ocasiões perdidas;

o mal que te fizeram mensageiros ímpios,
notícias desatadas, viagens que soçobraram
nos alivanhos, o ruído assustador de quem quer
viver. Uma fadiga que te corta o lábio,
onde o sabor do sangue se insinua

e entre destroços e a boca aberta de afogados,
o rei em Agelaos ordena que
escrevam o teu nome e o do teu pai
e o do local onde nasceste.


(de O que Vai Acontecer?, Assírio & Alvim, 1997)

9.10.13

ANA HATHERLY


A PALAVRA MISTERIOSA

a António Ramos Rosa

Sobe da sombra mais opaca
a tua figura radiosa
oh palavra misteriosa!

No obscuro pulsar de cada acto
reconstróis tudo por ausência
e o sentido consentido
sobe sem esforço as tuas escarpas

Potencial qualidade do outro
o teu segredo está
numa parábola
numa elipse
num ponto só
infinitamente alheio e sem medida


(de O Pavão Negro, Assírio & Alvim, 2003)

7.10.13

OLGA GONÇALVES


liberdade

vês. ao pé da mancha branca, a meio da vertente. vês. ao pé do souto. um pouco mais acima. sim. aquelas fragas. ali, os meus irmãos e eu brincávamos às guerras, e cada um escolhera o seu castelo, brincávamos à forma, ao sangue ainda cru, ao gelo muito azul, ao delírio dos castiçais no braço íngreme da montanha.

da ponte levadiça, eu, silvestre, gesticulava aranhas. dava bocadinhos de figos às borboletas. antecipava os nocturnos para a vigília de todos os animais dos meus espelhos.

agora a língua bate a paisagem que se tornou imóvel, amadurece e apodrece o líquen em cada ponto essencial da fraga, na última batalha, hoje abstracta combustão de ferros, deixei um grande resplendor. iluminuras vivas. era setembro violento e seco. ao fundo, perto dos salgueiros, o abismo do outono respirava. eu pensava nos mortos. no bafo da maçã. na pausa das imagens sobre a água. no buraco da rocha onde pudesse gritar liberdade. e a palavra caminhasse, sem tremer, até ao outro lado e acordasse os outros. e abrisse pórticos na treva.


(de Caixa Inglesa, edições Rolim, 1981)

6.10.13

JOÃO MIGUEL FERNANDES JORGE


FANTASIA PARA VIOLA

Ouvi uma das noites deste outono
as fantasias para viola de Henry
Purcell. Já as conhecia. Pela
noite de Óbidos
Savall ia apresentando um por um
os intérpretes, e dizia um pouco
sobre a história de cada viola da
gamba dedilhada, e também sobre
o violone tocado pelo senhor
Lorenz Duftschmidt, austríaco a
quem, e não sei por que razão
oculta, fixei o nome. Quando
chegou a Montserrat Figueras, que
entre as peças cantou além de
Purcell, Byrd, talvez com o sentido
de amenizar o tempo que era
necessário, entre as fantasias,
para o afinamento das violas que
obrigavam a rápidos desacertos, à
fuga de uma nota áspera na húmida
igreja de S. Tiago, intramuros. E
ele disse de Montserrat Figueras
«o único instrumento contemporâneo,
a sua voz».
Ninguém poderá saber como chegaram
as harmonias das violas que tocaram
Purcell
a este castelo que foi o centro do
mundo da minha infância; eu sei
ou julgo que sei todas as cores que
pelo outono descem o pano das
muralhas até ao mar,
do alto das ameias vê-se que não é
longe, basta seguir o áspero
caminho dos sentidos e depois tudo
se passará como quem descobre o
parentesco entre deus e o mundo.
Castelo e muralhas já não são
pedras de nenhum destino, a voz
foge da pressão da vida, queria
que cantasse sempre,
sem parar,
eternamente.


(de Não É Certo Este Dizer, Editorial Presença, 1997 / colecção forma)


5.10.13

VÍTOR NOGUEIRA


CLICHÉ

Não é que seja o momento para trocar
cartões-de-visita. José Maria da Silva,
fotógrafo profissional com estúdio em Lisboa,
tem por hábito mudar-se para a vila da Ericeira
na época balnear. Ainda está por aqui

no dia 5 de Outubro. Um notável testemunho
(gelatina e sais de prata, memória pronta e fiel)
que, com sorte, há-de chegar à Ilustração
Portuguesa. Além disso, uma kodak não tropeça
em estrangeirismos, ornatos de saber clássico,
no jeito francês da frase, nos defeitos da sintaxe.

José Maria da Silva, fotógrafo profissional,
passa o resto da tarde com um nervoso
miudinho. Até revelar as chapas. Olhem bem
para estas caras, estas formas do passado. Nada mais
para seres humanos. Pode dizer-se que sim.



HORIZONTE

O iate real segue o fio do horizonte,
essa linha escorregadia ao dispor dos que se atrevem.
E de novo a Ericeira fica à espera do crepúsculo.
Antigos embarcadiços podem agora sentar-se
nos bancos de pedra que rodeiam a capela, espraiam
a vista saudosa pela vastidão do mar.

O mar, sempre o mar. Acontece que somos bons
nisso: lágrimas e suspiros, coisas que brilham
no escuro e dependem dos ventos dominantes,
indícios levados pelas águas. Senhoras e senhores
fantasmas, o museu está oficialmente fechado.
Afastem-se do meu jantar.


(de Quem diremos nós que viva?, Edições Averno, 2010)

4.10.13

ANTÓNIO GANCHO


MÚSICA

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.


(de O Ar da Manhã, Assírio & Alvim, 1995)

3.10.13

CARLOS BESSA


SAÍDAS PROFISSIONAIS

De repente, sem pose nem porquê,
desata a escrever como um vidente,
como um Rimbaud. Ele, o revoltado,
que publicará não tarda três ou quatro
poemas numa dessas revistas que
ninguém lê e que o tempo tornará
raridade, se contiver nomes que
sonem, que façam a alegria de
alfarrábios e coleccionistas.
Mas por ora é apenas silêncio,
sufoco. Ninguém lhe diz nada, nem mesmo
os amigos mais chegados. E como
ainda não sabe que a literatura
é sempre essa alquimia de esperar,
vai-se esquecendo. O ritmo é outro.
Não o dos versos, mas o da carreira.
Tornar-se-á um gestor de primeira e
acabará os dias rico e feliz,
a dizer aos netos que a poesia é
uma mentira e que ele teve sorte,
abriu os olhos a tempo.



ALÍVIO RÁPIDO

A idade da poesia cedo nos abandona.
A prosa, pelo contrário, vai-se tornando imperativa,
obriga-nos às flexões da fala e encobre,
com elas, possibilidade tão bela, tão nobre.
Como se falar fora maneira de transformar
o menos em muito, e assim em paz com os sonhos
e com menos ânsias nos dedicássemos
à arquitectura das grandes causas,
a família, o emprego, as heranças.
Morre-se tanto à espera da sorte grande.
Por isso, quando dizes amanhã todo eu me esforço
por não cair no mau teatro dos cúmulos,
o do forno, o da panela ao lume. Mas, confesso,
as palavras enchem-se de crude e empoladas
e vulgares, nesse tom tão rente ao risível,
não dizem, planam, afectadas, vazias.
Só depois me lembro que o amanhã é próprio
da meteorologia e que esperar
foi sempre um propósito digno. Mais não seja
porque o coração precisa de uma ginástica
rude, que o endureça e torne elegante.


(de Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007)

2.10.13

WALLACE STEVENS


XIX

Quem me dera que pudesse reduzir o monstro a
Mim mesmo, e pudesse então ser eu mesmo

Face ao monstro, ser mais do que parte
Dele, mais do que o monstruoso tocador de

Um dos seus monstruosos alaúdes, não ser
Só, mas reduzir o monstro e ser,

Duas coisas, as duas em simultâneo numa,
E tocar do monstro e de mim mesmo,

Ou melhor, não de mim mesmo de modo algum,
Mas de algo como a sua inteligência,

Sendo o leão no alaúde
Perante o leão encerrado em pedra.


(de O Homem da Viola Azul, tradução de Maria Adelaide Ramos, Relógio d'Água, 2005 / The Man with the Blue Guitar, 1937)
ROBERT BRINGHURST


II

O pássaro é da cor do bronze duro
à luz solar, porém agora é meia-noite;
o pássaro da cor do bronze duro
à luz solar voando agora
sob a Lua.

Há um ponto em que
os meridianos se encontram num nó
de nada e uma região
onde os meridianos se desfiam e entrelaçam,
mas não como linhas ancoradas; desfiam-se
quais condutoras e arrastadas bordas
de asas, correndo do vazio
para o músculo e do músculo de novo se esticando para trás.

Escuta: os sons são os sons dos meridianos
chilreando, meridianos arrastados para produzirem
a ilusão de plectro, afinando cravelhas e um arcaboiço,
ou porventura a fim de produzirem a audição
de Elias: a pele
do silêncio a salgar,
sendo curtida,
endurecendo para o interior do vento.

Ou então os sons são os sons do ar a abrir-se
sobre o bico e a fechar-se sobre as asas,
abrindo-se por sobre o inamovível carregamento amarrado
entre a espinha e a garra,
amarrado entre o osso da asa e o cérebro.



(de A Beleza das Armas, tradução de Júlio Henriques, Antígona, 1994)

1.10.13

TIAGO PATRÍCIO


OS FALCÕES PEREGRINOS DO ANTIGO TERRITÓRIO DE NOVA YORK

O chefe índio Dois Pássaros baloiçava as tardes
com a mescalina oferecida pelos Falcões Peregrinos
siameses pela cauda como duas visões do mundo

Um era verde e o outro azul como espinhos
O azul cuspia fogo numa planície da altura das monções
engordava como um dragão a sufocar a terra
e enrolava restos de gente pelo vale estéril

O verde corria pelo golfo à hora de maior calor
deslocava os rios como mulheres nubladas
e quando descia à pátria deixava um hálito fundo
com o lamento de um retornado

O chefe índio perguntou
até onde durava a violência
e quando poderiam voltar àquela terra
E eles disseram coisas indistintas e
falaram do ar pesado durante muito tempo
com as asas um do outro até acabar a mescalina
e começar outra forma de aturdimento



(de O Livro das Aves, Quasi edições, 2009)

30.9.13

MIGUEL-MANSO


escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais

não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer

corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer


(de Aqui podia viver gente, Primeiro Passo, 2012)

27.9.13

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Exigir que a obra de arte tenha uma regulação perfeitamente lógica, resulta do equívoco de confundir dois níveis sucessivos, mas diferentes, do intelecto, o qual não pode ser apenas limitado à sua actividade porventura mais pura, mas também mais convencional: a do discurso lógico e racional. Na poesia e na arte clássicas, a intuição criadora submetia-se a uma organização lógica que não as impedia, efectivamente, de atingir a realidade poética através da combinação das qualidades sensíveis que, quer a poesia, quer qualquer forma de arte, põem em jogo. Todavia, essa superestrutura lógica interpunha-se como um obstáculo ao livre desenvolvimento da imaginação e da emoção criadoras. Na poesia e na arte modernas, o processus criador liberta-se completamente da regulação lógica, desenrolando-se através de estruturas próprias, que se organizam não-racionalmente em ordem a uma nova realidade que se torna, assim, fruto mais directo e mais fiel da inicial intuição criadora. O facto de não haver regulação lógica não destitui a obra de uma estrutura coerente, nem de uma significação própria: pelo contrário, a sua estrutura e significação ganharam um grau de pureza e densidade específicas, que são a resultante inevitável da evolução histórica dos processos artísticos.
De tudo isto se conclui a necessidade de revisão do conceito de poesia e de obra de arte, que já não podam aferir-se pelos critérios do passado. As relações entre obra de arte e espectador sofreram já uma alteração substancial. O conceito de obra «aberta» implica uma nova comparticipação do consumidor estético. A uma poética do unívoco, que corresponde a um mundo estático, sucede-se uma poética de polivalência e ambiguidade, onde tudo é movimento. Mas tal processo não se iniciou sequer no século passado: é um processo que remonta à perspectiva dinâmica que nos oferece a arte barroca, como acentua Umberto Eco. É a partir daí que as poéticas «tendem a promover estas atitudes de invenção criadora do homem novo, que já não vê na obra de arte um objecto de pura dilecção estética, fundado em relações explícitas, mas um mistério a penetrar, um fim a atingir, um apelo permanente à imaginação». Através de uma criação livre, o artista continua a procurar e a descobrir a sua unidade com o universo, de que comparticipa numa aventura sem fim.»


(excerto de «O Poema, sua Génese e Significação», in Poesia Liberdade Livre, 2ª edição: Ulmeiro, 1986 - artigo publicado originalmente em 1960)

23.9.13

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Em qualquer parte um homem
discretamente morre

Ergueu uma flor
Levantou uma cidade

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri


(de Viagem através de uma Nebulosa, 1960)

22.9.13

GABRIELA MISTRAL


UMA PALAVRA

Eu tenho uma palavra na garganta
e não a solto, não me livro dela
mesmo com todo o empurrão do sangue
Se a libertasse, queimaria pastos,
sangraria cordeiros, cairiam pássaros.

Eu devo desprendê-la desta língua,
encontrar um buraco de castores,
sepultá-la com cal e argamassa
pra que não guarde como a alma o voo.

Não quero dar sinais de que estou viva
enquanto circular pelo meu sangue
e suba e desça no meu louco fôlego.
Embora o meu pai Job, ardendo, a tenha dito,
não quero dar-lhe a minha pobre boca
para que não a encontrem as mulheres
que vão ao rio, se prenda às suas tranças
ou se enrede no pobre matagal.

Violentas sementes vou lançar-lhe,
pra que uma noite a cubram e a afoguem
sem deixar dela o rasto de uma sílaba.
Ou destruí-la assim, tal como a víbora
se parte em dois pedaços entre os dentes.

E regressar a casa, entrar, dormir,
já isolada, separada dela,
e acordar depois de dois mil dias,
recém-nascida em sono e esquecimento.

Sem saber, ah!, que tive uma palavra
feita de iodo e alúmen entre os lábios,
nem poder recordar-me de uma noite,
de uma morada num país alheio,
da cilada ou relâmpago na porta,
a minha carne a andar sem sua alma.


(in Antologia Poética, selecção, tradução e apresentação de Fernando Pinto do Amaral, Teorema, 2002 - original de Lagar, 1954)