15.9.13

GILBERTO MENDONÇA TELES


CAMUFLAGEM

Havia um sujeito puro,
capaz das coisas mais ternas.
Veio o mundo com seus m'urros,
com seus disfarces de fera

(casco de ouro reluzindo
na arquitetura da noite)
e transformou tudo em cinza
na gestação de seus coices.

Cavalgou pelo silêncio
seus cavalos cor de barro
e foi largando no chão
o -ão do não de seus passos.

Depois, com dentes e unhas,
mostrou-se inteiro, no avesso:
era outro i'mundo, mas c'ego,
não tinha garras aduncas,

não tinha amarras nos murros,
não era fúria nem f'era,
nem viu o sujeito puro,
capaz das coisas mais ternas.


(de A Raiz da Fala, 1972)

10.9.13

LUÍS FILIPE PARRADO


Olhas as palavras
mas não vês nenhuma luz.

Olhas as árvores
e vês troncos, ramos, a variada folhagem.

As raízes tens de as imaginar.
Ou escavar a terra.

Agora olha, de novo, as palavras.
Agora, como olhas as árvores.

E tens de imaginar agora.
E escavar, agora, a terra.


(de Entre a Carne e o Osso, Língua Morta, 2012)

7.9.13

JOSÉ RICARDO NUNES


ALMEIDA, Francisco António de
(c. 1702-1755)



A água que sobe a Lisboa
e reflui, destruidora, no primeiro de Novembro
de cinquenta e cinco, só me poupa um retrato
cuja legenda comprova ter sido
"bravo compositor de Concertos e de Música de Igreja"
e "um assombro no canto, com inatingível gosto".
Uma surpresa, o teu júbilo com a reedição
exclusiva para o mercado português
de 'La Giuditta', adquirida num centro comercial
por preço acessível depois de muito imaginares
que música eu seria. No booklet enaltecem
a "precisão da escrita" o "domínio
da orquestra", o "tratamento concertante
das vozes", "a inesgotável
inspiração melódica". Tudo mereceu
o resgate de Jacobs, quase
tudo, pois aqui e ali não me interpreta
devidamente. Parece-te poema?
Tinha vinte e quatro anos. Sentia-me na obrigação
de agradecer ao Marquês de Fontes o apoio
da sua Embaixada durante a estadia
em Roma, onde pude aprender,
aperfeiçoar o estilo e pôr-me a par
das novidades. Suposto imaginar
o regresso a Lisboa, a condescendência
do ouro, a Sé, a Capela Real, os Infantes, a súbita
subida na escala das águas?


(de Compositores do Período Barroco, Deriva Editores, 2013)

 

22.6.13

CARLOS POÇAS FALCÃO


COMPOSIÇÃO MEDITATIVA II

Não sou um indignado. Sei que o mundo passa
bem sem mim — o que é justo e me assinala a grande liberdade.
Procuro manter a dignidade, estou a envelhecer e no entanto
pronto a começar. Afinal está provado o sem sabor de tudo
— a não ser daquilo que começa, do que é inicial,
ou seja, desde sempre. Aí regresso a horas repentinas,
muitas vezes entre um desencontro e o café.
Isso é terrível e procuro manter a dignidade.
Foi numa dessas horas que descobri que Deus
não passa bem sem mim — o que não me indigna
e também não me alivia da grande liberdade. Afinal
ser homem para Deus é o sabor inicial.



 

(in "Telhados de Vidro", n.º 18 | Maio 2013)

19.6.13

ARMINDO RODRIGUES


AVE NEGRA

Estou vazio e estou triste. Quantos enlevados propósitos tantas vezes pus na crispação destas mãos arremessadas e na nudez desta voz me parecem hoje inatingíveis.

Sei que outros sonham os mesmos sonhos que eu sonhei. Mas hoje estou vazio e estou triste. Friamente penso, contra esta tristeza e esta vacuidade, que os meus sonhos são exactos, porque os nutre o exacto sangue de uma fatalidade mortal.

Hoje, porém, nem pensar friamente me serve para deixar de sentir-me vazio e triste. A minha raiva é a mesma, sem remédio. O meu desejo de um mundo mais justo e mais claro é o mesmo, trasbordante. Simplesmente, hoje, estou vazio e estou triste.

Uma ave negra tolda-me o espaço e tolhe-me, e o pior é que não caiu de fora sobre mim, mas foi em mim que se levantou, e de mim se levantou, para me toldar o espaço e me tolher, e nem sequer é uma ave de remorsos ou de arrependimento, vergonhosa, que eu, contudo, pudesse matar.

Estou vazio e estou triste. E nem pela análise mais cruel consigo mais que saber porque não é que estou vazio e que estou triste.


(de O Inquieto Repouso, 1973)

17.6.13

JORGE DE LIMA


II

Era um cavalo todo feito em chamas
alastrado de insânias esbraseadas;
pelas tardes sem tempo ele surgia
e lia a mesma página que eu lia.

Depois lambia os signos e assoprava
a luz intermitente, destronada,
então a escuridão cobria o rei
Nabucodonosor que eu ressonhei.

Bem se sabia que ele não sabia
a lembrança do sonho subsistido
e transformado em musas sublevadas.

Bem se sabia: a noite que o cobria
era a insânia do rei já transformado
no cavalo de fogo que o seguia.

III

Qual um fagote inúmero a ave aquática
com uma ostreira de teclas submarinas,
os sons encachoeirados estrugindo
pelos goles das águas empoladas

conclamando os delfins de rosto humano,
cabeleiras de polvos e de fúrias,
com um severo clangor, uma lamúria,
um apelo profundo, tão insano

desse mar que nos mapas não se vê,
abrasado de raios e ardentias,
devorado por duendes que eram seus,

e voz tão rubra de cains oriunda;
que as águas se enrugavam e a ave ia
ia perder-se nos confins do mundo.

IV

Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o incubo cavalo se nutria.

V

Entre livro e cavalo  o homem instalou
duas escadarias e uma bússola;
depois verificou que sendo duplas
as suas asas dúbias, duplo o vôo.

Pousou na escuridão, e repousou,
pois era o dia sete de seus súcubos.
Foi quando se exclamou: Faça-se a luz.
E a luz dentro das trevas se formou.

Moldoror! Mal-e-horror! ó terra nata,
tão empresa, tão ébria, tão perjura
e sempre, e ao mesmo tempo tão amarga!

Que lume bruxuleia sobre as vagas?
Candelabro ou veleiro ou raio obscuro
que ora sobe na proa ora se apaga?


(do "Canto IV / Aparições" de Invenção de Orfeu, 1952)

16.6.13

D. H. LAWRENCE


ANAXÁGORAS

Quando Anaxágoras afirma: Até a neve é negra!
é tomado muito a sério pelos sábios
pois está a enunciar um «princípio», uma «lei»:
todas as coisas estão misturadas, logo na mais pura neve branca
existe um elemento de negrume.

A isto chamam eles ciência e realidade.
Por mim, chamo-lhe pedantismo mental e mistificação
e coisa absurda pois para nós é branca a neve pura
branca branca e só branca
esplendor belíssimo de brancura no branco
delícia de alma onde os sentidos
conhecem o êxtase.

E a vida é para o êxtase a delícia
o terror e a negra profecia revolta do destino;
depois é a aurora radiosa da delícia renascida
que vem da brancura absoluta da neve ou da lua imóvel.

E na sombra do sol a neve é azul, azul tão sobranceiro
com laivos de campânulas geladas da flor de cila
mas sem sombras nem sinais do luto de Anaxágoras.



(versão de João Almeida Flor, in Gencianas Bávaras e outros poemas, Na Regra do Jogo, 1983)

15.6.13

[outros melros LXVII]

ABEL NEVES


primavera

o melro vem
deixa as cores e vai
eu fico


(de Quasi Stellar, Língua Morta, 2013)

14.6.13

EDUARDO GUERRA CARNEIRO



III

Eles buscam novelos no meio da lixeira.
No negrume do poço rasgam véus
e a poeira brilha, feita mica.
Do granito regressas, mãos vazias,
pois disseram-te que o poço já secou.
Vermelhos os novelos marcaram a sombra
onde nasciam outras borboletas.
Era a luz que buscavas, viajante,
vindo das trevas desse Inferno teu.
Os cães ladram-te à noite nas ruelas
e a encruzilhada tem pronto o feitiço.
Volta, pois, ao lixo, a essa lixeira,
monturo de sentimentos esquecidos:
as estrelas ainda brilham lá ao fundo.

Tropeças num cordel, envolves-te
no pântano. Cordões de nervos teus
assim quiseram: criar o imaginário.
Voa sobre o terreno podre que criaste
e marca um areal e claras ondas.
Os sonhos que tu julgas realidade
não passam de mentira. Tropeças
quando queres e és andorinha
riscando o céu urbano e os beirais.
Vem-me aqui às mãos, tão franciscanas!,
e enreda-te noutros sonhos.
Dou-te as possíveis asas para o voo
quando as últimas amarras desse medo
cortares como um cordão umbilical.

 

(de Lixo, &etc, 1993)
FRANCISCO DE SÁ DE MIRANDA


O sol é grande, caem co’a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d’alto cai acordar-m’ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu’em vós confia?
Passam os tempos vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d’amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
Também mudando-m’eu fiz doutras cores:
E tudo o mais renova, isto é sem cura!

13.6.13

THOMAS McCARTHY


A CASA PROTEGE-TE

A casa protege-te como é próprio de uma casa.
Torna-se a zona exclusiva da imaginação —
mas no interior da zona há algo mais,
uma máquina blindada de rotinas
focinhando tudo. A casa nunca pára quieta:
vai a todo o vapor à tua marcha
e esmaga tudo em seu caminho.

Nada ousa opor-se à tua depressão.
Como súbditos, curvamo-nos, abrimos alas;
tornamo-nos estúpidos em mais um dia desolador.
O que eu odeio é a tua máquina não lubrificada:
O que eu contenho é a minha ira sem resposta.



 

(in O Jardim da Dor e outros poemas, tradução colectiva em mateus, Quetzal editores, 1993)

10.6.13

HENRI MICHAUX


PEQUENO

Quando me virem,
Passem ao largo,
Não sou eu.

Nos grãos de areia,
Nos grãos dos grãos,
Na farinha invisível do ar,
Num grande vácuo que se alimenta de sangue,
Aí é que eu vivo.

Oh! não tenho de que me envaidecer: Pequeno! Pequeno!
E se me apanhassem,
Fariam de mim o que quisessem.



 

 (de As Minhas Propriedades, trad. de José Carlos González, Fenda, 1999)

9.6.13



ANTÓNIO SALVADO


ODE

Que à nossa volta as coisas permanecem
impuras, ninguém o negará. Caminhos vastos
porém erguem-se audazes pela vida fora
e paralelos em sua directriz à dimensão
real do dia a dia. Caminhos
são essa voz do tempo que chamara
aqui, ali e mais além ainda. Caminhos
são essa nesga de sol que à superfície
do espírito acalenta descobertas.
— Erguidos, pois, que esta manhã permite
com sua jovem seiva o percurso
por onde havemos de correr. Afoitos,
a hora é começar. Dentro de nós existe
o verdadeiro sinal: escolhamos
a cor, que uma cor afinal
teremos de escolher.


(de Difícil Passagem, 1962)

8.6.13


JOSÉ BLANC DE PORTUGAL


As coisas são para que sejam não para
que as escrevamos As palavras são pa-
ra serem ditas Não para que as escre-
vamos Se escrevemos é para dizer o que
as palavras não são
De aqui a construção de todas as artes
poéticas que se fazem com poemas e não
com palavras Como os tijolos nas casas
Mas as casas não são tijolos, pedras ou
cimento
Os poemas têm dentro vidas — não uma
só vida e as palavras são a caixa, o
frasco, a lata O invólucro que se dei-
ta fora após o consumo do produto Esse
é que é o poema que se consome Ainda
que fiquem registados Como as fotogra-
fias dos mortos O produto é fármaco
feito segundo a arte
Que pode ser apenas a forma de mexer
as mãos Ao lançar palavras no papel Ou
de mover os lábios Ao dizer o poema
que não se escreveu
O resto são coisas secundárias As re-
ceitas baseadas nos poemas só servem
para as imitações
O poema imita o poeta e as suas cria-
ções Imita o que o poeta cria do cria-
do
O resto é ganha-pão de professores e
críticos Que muito divertem o poeta a-
fadigado Quando decide descansar e não
fazer poemas

6.10.70


(in Viola Delta, volume XIX / Maio de 1994)